sexta-feira, novembro 04, 2005

Sadhu Sundar Singh

Wisdom of a Sadhu
Sundar Singh (1889-1929)

Both water and oil come from the earth. And though they are similar in many ways, they are opposites in their nature and their purpose. One extinguishes fire, the other gives fuel to the fire. Similarly, the world and its treasures are creations of God along with the soul and its thirst for spiritual truth. But if we try to quench the thirst of our soul with the wealth and pride and honors of this world, then it is like trying to extinguish fire with oil. The soul will only find peace and contentment in the One who created it along with its longing. When we turn to the living Master, we receive water that satisfies our soul. This water is a well of spiritual life that springs up deep within us.

Source: "Wisdom of the Sadhu: Teachings of Sundar Singh" (Plough, 2000)

Que pode ser:

Água e óleo vêm da terra. E embora sejam parecidos em muitas coisas, têm natureza e propósitos totalmente opostos. Um extingue o fogo, o outro alimenta o fogo. Assim também o mundo e seus tesouros são criação de Deus, como também a alma e sua sede por verdade espiritual. Mas se tentamos matar a sede da alma com riqueza e orgulho e honra deste mundo, então é como se tentássemos apagar fogo com óleo. A alma só encontra paz e contentamento nAquele que a criou bem como a seus desejos. Quando nos voltamos ao Mestre da vida, recebemos a água que satisfaz a alma. Essa água é um poço de vida espiritual que brota do profundo do nosso interior.

quinta-feira, outubro 13, 2005

paz

"Na vontade divina está a nossa paz:
ela é aquele mar ao qual tudo se move,
as coisas criadas por Deus e por meio da natureza" (Dante, Divina Comédia, III.iii).

sexta-feira, outubro 07, 2005

razão e sentidos

"... a razão guiada pelos sentidos tem as asas curtas" (Dante, Divina Comédia, III.ii).

domingo, setembro 25, 2005

a inveja

É Virgílio quem adverte o jovem Dante, caminhando pelas trilhas do Purgatório:

"A inveja vos atormenta, porque os vossos desejos
olham àqueles bens terrenos, dos quais tanto mais o gozo
diminui quanto mais são os que nele participam.

Se o amor da suma esfera encaminhasse os vossos desejos
para o alto, não teríeis no coração o receio que
outrem pudesse diminuir um instante o vosso gozo;

naquele claustro, isto é, no Céu, ao contrário da Terra,
quanto são mais a gozar de um mesmo bem,
tanto mais cada um goza.

(...)

Quanto maior é o número dos que no Céu amam,
tanto mais ocasião vos é de amar com santo amor,
bem como espelho um ao outro refletindo".

(A Divina Comédia, II.xv)

sexta-feira, setembro 23, 2005

fama, eternidade e esquecimento

A Divina Comédia é um mar às vezes revolto, às vezes calmo, mas sempre cheio de peixe. Em capa página é possível pescar sabedoria e ironia, como em:

"A fama que se adquire no mundo é como o soprar do
vento, que ora é numa direção, ora noutra, e recebe
diversos nomes segundo as várias partes das quais sopra.

Antes que seja passado um milênio, que é em
confronto com a eternidade um tempo mais breve
que um volver de olhos em comparação

ao movimento do céu estrelado, qual fama
haverás tu maior se morreres
na velhice, ou se morreres menino?

(...)

O vosso renome tem a cor da erva,
e passa da manhã à tarde e o Sol
que a fez nascer é o mesmo que a seca."


(Dante, II.xi)

quinta-feira, setembro 22, 2005

pai nosso de Dante

Assim oram as almas no Purgatório de Dante:

"Ó Padre nosso, que estais no Céu,
não para te confinar, mas por maior amor
aos Céus e aos Anjos,

toda a criatura louve o teu nome
e a tua potência e te dê graças
do amor que lhe demonstras.

Faz descer sobre nós a paz do teu reino,
pois que nós não podemos nada
para conseguir isto por nós mesmos.

Como dos seus desejos te fazem sacrifícios os Anjos,
que no Céu cantam hosana,
assim façam sobre a terra os homens.

Dai-nos hoje o pão quotidiano,
sem o qual por este áspero deserto
quem mais quer avançar mais se desvia.

E como nós perdoamos a cada um o mal que temos
sofrido, também tu perdoa benignamente sem olhar
aos nossos escassos méritos.

Não ponhas à prova com as tentações diabólicas
a nossa virtude, que é facilmente vencida pelo grande
inimigo, mas livra-a do Diabo que a impele ao mal..."

(Dante Alighieri, A Divina Comédia, II.xi)

quinta-feira, setembro 15, 2005

amigos especiais







Com Josias Hack na Cong. Trindade













Tiago Vianna na Cong. Presbit. em Tubarão












Com Tiago Vianna no Morro dos Conventos, em Araranguá (SC)

razão e limite

Estou lendo A Divina Comédia, e me surpreendendo a cada passo de Dante Alighieri e seu companheiro Virgílio (o escritor romano). Em certa altura, lê-se:

"Estulto é quem espera que a nossa razão
possa percorrer toda a infinita via,
que tem uma substância em três pessoas.

Contentai-vos de conhecer as obras de Deus;
porque se os homens tivessem podido conhecer
todas as coisas, fora inútil o parto de Maria" (Dante, II.iii).

quinta-feira, setembro 08, 2005

for love or money?

"Some people want to see God with their eyes as they see a cow and to love him as they love their cow - they love their cow for the milk and cheese and profit it makes them. This is how it is with people who love God for the sake of outward wealth or inward comfort. They do not rightly love God when they love him for their own advantage. Indeed, I tell you the truth, any object you have on your mind, however good, will be a barrier between you and the inmost truth" (Meister Eckhart).

Versão possível:

"Algumas pessoas querem ver a Deus com seus olhos como eles vêem uma vaca e amá-lo como amam sua vaca – eles amam sua vaca pelo leite e queijo e lucro que ela dá. É isso o que acontece com gente que ama a Deus com a expectativa de ganhar riqueza exterior e conforto interior. Eles não amam a Deus corretamente quando o amam para obter vantagens. Falando sério, vou dizer a verdade, qualquer objeto que você tenha em sua mente, ainda que seja bom, será uma barreira entre você e a verdade mais profunda" (Meister Eckhart).

homeless


"'How can you worship a homeless Man on Sunday and ignore one on Monday?' said the sign outside St. Edward's Cathedral in Philadelphia" (Christianity Today).

Tal e qual:

"'Como você pode adorar um Sem-teto no domingo e ignorar um sem-teto na segunda?', diz o cartaz da catedral de Santo Edwards, na Filadélfia" (revista Christianity Today).

imaginação em Lobato

“O mais lindo era que o vestido não parava um só instante. Não parava de faiscar e brilhar, e piscar e furtar-cor, porque os peixinhos não paravam de nadar nele, descrevendo as mais caprichosas curvas por entre as algas boiantes. As algas ondeavam as suas cabeleiras verdes e os peixinhos brincavam de rodear os fios ondulantes sem nunca tocá-los nem com a pontinha do rabo. De modo que tudo aquilo virava e mexia e subia e descia e corria e fugia e nadava e boiava e pulava e dançava que não tinha fim...

A curiosidade de Emília veio interromper aquele êxtase.

– Mas quem é que fabrica esta fazenda, dona Aranha? – perguntou ela, apalpando o tecido sem que Narizinho viesse.

– Este tecido é feito pela fada Miragem – respondeu a costureira.

– E com que a senhora o corta?

– Com a tesoura da Imaginação.

– E com que agulha cose?

– Com a agulha da Fantasia.

– E com que linha?

– Com a linha do Sonho.

– E.. Por quanto vendo o metro?

Narizinho, já mais senhora de si, deu-lhe uma cotovelada.

– Cale-se, Emília. Os peixinhos podem assustar-se com as suas asneiras e fugir do vestido” (Lobato, Narizinho Arrebitado, p. 62-3).

quinta-feira, setembro 01, 2005

não é comigo!

"First they came for the communists,
and I did not speak out because I was not a communist.
Then they came for the socialists,
and I did not speak out because I was not a socialist.
Then they came for the trade unionists,
and I did not speak out because I was not a trade unionist.
Then they came for the Jews,
and I did not speak out because I was not a Jew.
Then they came for me,
and there was no one left to speak out for me" (Martin Niemoeller).

Ou:

"Primeiro eles vieram buscar os comunistas,
e eu não falei nada porque eu não era comunista.
Depois eles vieram buscar os socialistas,
e eu não falei nada porque eu não era um socialista.
Então eles vieram buscar os sindicalistas,
e eu não falei nada porque eu não era sindicalista.
Daí eles vieram buscar os judeus,
e eu não falei nada porque eu não era judeu.
Então eles vieram me buscar,
e não havia ninguém para clamar por mim" (Martin Niemoeller).

O pastor Niemoeller viveu na Alemanhã no período de ascenção do Nazismo e durante a II Guerra Mundial. Seu alerta continua valendo para nós.

wiser than men


"Children, who play life, discern its true law and relations more clearly than grown men and women, who fail to live it worthily, but who think they are wiser by experience, that is, by failure" (Henry David Thoreau).

Em linguagem de brasileiro, soa mais ou menos assim:

"As crianças, que brincam de viver, discernem a verdadeira lei e as relações da vida mais claramente do que homens e mulheres adultos que não conseguem viver com dignidade, mas pensam que são sábios pela experiência, quer dizer, pelo erro" (Henry David Thoureau).

sexta-feira, agosto 26, 2005

good and evil

"Annihilation itself is no death to evil. Only good where evil was, is evil dead. An evil thing must live with its evil until it chooses to be good. That alone is the slaying of evil" (George MacDonald).

Má-o-meno:

"A aniquilação por si só não significa a morte do mal. Somente a presença do bem onde havia maldade é de fato a morte do mal. Uma coisa maligna deve conviver com sua malignidade até que escolha ser boa. Apenas aí é que se dá o fim do mal" (George MacDonald).

sexta-feira, agosto 19, 2005

uma mensagem de Brother Roger

Happy Are They

One of the first things Christ says in the Gospel is this: "Happy the simple-hearted!" Yes, happy those who head towards simplicity, simplicity of heart and simplicity of life.

A simple heart attempts to live in the present moment, to welcome each day as God’s today… Simplifying our life enables us to share with the least fortunate, in order to alleviate suffering where there is disease, poverty, famine…

Where can we find the simplicity indispensable for living out the Gospel? Some words of Christ enlighten us. One day he said to his disciples, "Let the little children come to me; the realities of God are for those who are like them."

And so we would like to say to God: "God, you love us: turn us into people who are humble; give us great simplicity in our prayer, in human relationships, in welcoming others."

Brother Roger of Taizé
stabbed to death on Thusday
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Possibilidade de tradução:
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Uma das primeiras coisas que Cristo diz nos evangelhos é: "Felizes os simples de coração!". Sim, felizes aqueles que se movem em direção à simplicidade, simplicidade de coração e simplicidade de vida.
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Um coração simples tenta viver no presente momento, dando boas-vindas a cada dia como o hoje de Deus... Simplificar a nossa vida permite-nos compartilhar com os menos afortunados, a fim de aliviar o sofrimento onde há doença, pobreza, fome...
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Onde podemos encontrar a simplicidade para viver o evangelho? Algumas palavras de Cristo são esclarecedoras. Um dia ele disse aos discípulos: "Deixar vir a mim as criancinhas; delas é a realidade do reino de Deus".
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E assim gostaríamos de dizer a Deus: "Deus, tu nos amas. Torna-nos pessoas mais humildes; dá-nos grande simplicidade em nossas orações, em nossas relações humanas, em nossa hospitalidade para com os outros"
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Irmão Roger, de Taizé (França)
assassinado a facadas na última quarta-feria (17 ago 05)

terça-feira, agosto 09, 2005

nagasaki

Faze hoje 60 anos que caiu uma bomba atômica sobre a cidade de Nagasaki, matando milhares de pessoas e forçando a rendição incondicional do exército japonês. Uma canção romântica do Gilberto Gil sugere que "uma bomba sobre o Japão fez nascer o Japão da paz". A canção trata especificamente de conflitos conjugais, mas faz uma afirmação que chama a atenção. Como pode uma bomba trazer a paz?

De fato, depois da bomba o Japão se rendeu aos Estados Unidos, e ao mundo ocidental. Até bem pouco tempo não havia mais exército japonês, hoje os soldados japoneses participam das forças de paz da ONU e o Japão é uma potência econômica, industrial, tecnológica, embora cada vez mais descaracterizada, desenraizada de suas antigas raízes culturais. Mas é isso o que podemos chamar de o Japão da paz?

As guerras são feitas em nome da defesa da pátria, da ordem, de Deus... e da paz. Esse é o grande argumento para justificar os lançamentos das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki. Para salvar vidas americanas, é preciso matar muitos japoneses. E assim, se de fato a bomba trouxe a paz, aquelas vidas morreram em sacrifício.

Contudo, o que traz a paz não é a bomba. Ela traz a dominação, a destruição, a humilhação, o trauma, mas não a paz. Traz uma nova ordem mundial, um novo mapa para as nações, estabelece novas rotas para os navios, outras moedas correntes.

A paz nasce da reconciliação com o inimigo, do perdão, da aceitação do outro, do respeito mútuo, da cooperação. A paz não é um tratado de rendição em que o vencido admite sua derrota. É uma declaração de amor. A paz é irmã gêmea da justiça.

Entretanto, numa dimensão muito mais profunda e na dimensão do evangelho de Cristo, a paz que o mundo não pode conhecer, que transcende a lógica de nossa cultura, a paz de Cristo é trazida pelo seu sacrifício. Paz com Deus, quebra de barreiras, paz com os seres humanos. Paz interior e com o cosmos. Paz que nasce do desejo bom do Criador. Paz que é estabelecida em nós pelo Espírito Santo. Paz rara, paz profunda!

Uma bênção irlandesa diz: "Deep peace, pure gold of the sun to you. Deep peace, pure white of the moon to you. Deep peace, pure blue of the sky to you. Deep peace, pure green of the grass to you. Deep peace, pure brown of the earth to you. Deep peace, pure grey of the dew to you. Deep peace, of the running wave to you. Deep peace, of the whispering trees to you. Deep peace, of the flowing air to you. Deep peace, of the quiet earth to you. Deep peace, of the shining stars to you. Deep peace, of the Son of Peace to you".

Uma tradução mais ou menos: "Paz profunda, puro ouro do sol para ti. Paz profunda, pura brancura da lua para ti. Paz profunda, puro azul do céu para ti. Paz profunda, puro verde da grama para ti. Paz profunda, pura cor de terra para ti. Paz profunda, puro cinza do orvalho para ti. Paz profunda das águas correntes para ti. Paz profunda, do murmúrio das árvores para ti. Paz profunda, do ar que flui para ti. Paz profunda, do Filho da Paz para ti".

sexta-feira, agosto 05, 2005

why we flee

Why We Flee
(M. Basil Pennington)

"Unfortunately, in seeing ourselves as we truly are, not all that we see is beautiful and attractive. This is undoubtedly part of the reason we flee silence. We do not want to be confronted with our hypocrisy, our phoniness. We see how false and fragile is the false self we project. We have to go through this painful experience to come to our true self.


"It is a harrowing journey, a death to self—the false self—and no one wants to die. But it is the only path to life, to freedom, to peace, to true love. And it begins with silence. We cannot give ourselves in love if we do not know and possess ourselves. This is the great value of silence. It is the pathway to all we truly want".

Possível tradução:
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"Infelizmente, ao ver-nos como realmente somos, nem tudo o que vemos é bonito e atraente. E em parte é por isso mesmo que fugimos do silêncio. Não queremos ser confrontados com nossa própria hipocrisia, nossos fingimentos. Vemos quão falso e frágil é o falso eu que projetamos. Temos que passar por essa experiência dolorosa para encontrar nosso verdadeiro eu.
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"É uma viagem limitante, a morte do eu -- do falso eu -- e ninguém quer morrer. Mas esse é o único caminho para a vida, a liberdade, a paz, o verdadeiro amor. E tudo começa com silêncio. Não podemos dar a nós mesmos em amor se não conhecemos e possuímos a nós mesmos. Esse é o grande valor do silêncio. Ele é o caminho para tudo o que realmente desejamos".
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[M. Basil Penington faleceu recentemente devido a ferimentos graves em um acidente de automóvel]

quinta-feira, agosto 04, 2005

the American Indians

"The Indians knew that life was equated with the earth and its resources, that America was a paradise, and they could not comprehend why the intruders from the East were determined to destroy all that was Indian as well as America itself" (Dee Brown).

segunda-feira, agosto 01, 2005

haicai

inverno sem frio
primavera deslocada
árvore confusa

quarta-feira, julho 27, 2005

serve somebody

You may be a state trooper, you might be a young Turk,
You may be the head of some big TV network,
You may be rich or poor, you may be blind or lame,
You may be living in another country under another name

You may be a preacher with your spiritual pride,
You may be a city councilman taking bribes on the side,
You may be in a barbershop, you may know how to cut hair,
You may be somebody's mistress, may be somebody's heir

Might like to wear cotton... might like to wear silk,
Might like to drink whiskey, might like to drink milk,
You might like to eat caviar, you might like to eat bread,
You may be sleeping on the floor, or in a king-sized bed

But you're gonna have to serve somebody,
yes indeedYou're gonna have to serve somebody.
It may be the devil, or it may be the Lord
But you're gonna have to serve somebody.

Bob Dylan
Uma tradução possível:
Você pode ser um soldado do governo ou pode ser um jovem turco,
pode ser o dono de uma grande rede de TV.
Você pode ser rico ou pobre, pode ser cego ou coxo.
Você pode estar em um outro país, vivendo com outro nome.
Você pode ser um pregador cheio de orgulho espiritual.
Você pode ser um vereador aceitando propinas por baixo do pano.
Você pode estar numa barbearia e saber cortar cabelo,
Você ser a amante de alguém, ou um herdeiro.
Pode ser que você goste de algodão... ou quem sabe seda,
talvez goste de tomar uísque... ou quem sabe leite
talvez goste de comer caviar... ou quem sabe pão,
talvez durma no chão, ou quem sabe numa cama de casal
mas você estará servindo a alguém, sim, é verdade
você estará servindo a alguém.
Pode ser o diabo, pode ser o Senhor,
mas você estará servindo a alguém.
(Dylan)

sábado, julho 23, 2005

relâmpago

"I am sure that the bit of the road that most requires to be illuminated is the point where it forks" (John Baillie).

Tradução possível:

"Estou certo de que a parte da estrada que mais precisa ser iluminada é o ponto em que se bifurca" (John Baillie, teólogo escocês, 1880-1960).

Eugene Peterson, comentando o Salmo 120, diz que a palavra SENHOR, que aparece uma única vez no salmo, é como um relâmpago que ilumina a encruzilhada.

Segundo Elie Weisel, uma história judaica antiga fala de um viajante perdido numa floresta. Está escuro e ele está com medo. O perigo parece rondar cada árvore. Uma tempestade quebra o silêncio. O tolo olharia para o relâmpago, o sábio olha para a estrada repentinamente iluminada diante dele.

quinta-feira, julho 21, 2005

derramar o coração

O salmo 62 fala de derramar o coração perante Deus. Trata-se de um convite ao povo. Mais que experiência individual, trata-se de manifestação coletiva, social, comunitária. Um povo, junto, decide derramar seu coração diante de Deus. Onde está o coração de um povo? Na vida econômica, material? Na vida cultural? Na agenda política? Talvez em tudo isso e mais um pouc0.

Derramar o coração é experiência de sangria. Não parece ser indolor. É expor-se, é pagar mico, é aprender a lamentar o que é lamentável, aprender a lidar com emoções, com sentimentos, é mais que razão. Não se trata de entender o coração, mas estender as fibras do coração.

Ensina-me isso, meu Deus, que essa lição eu perdi. Devo ter faltado à aula.

quarta-feira, julho 20, 2005

um haicai

o dia amanhece
gelo sobre a grama verde
beleza e torpor

geada sobre a relva

Ao vir trabalhar hoje pela manhã, encontrei a grama que cobre o campus coberta de uma fina camada de gelo. Não resisti, tive que tocar as folhas da grama, sentir a textura do gelo, o frio, a realidade e a beleza da transformação. Agora mesmo o sol deve estar fazendo o seu serviço de descongelamento geral, pois não há grama que agüente esse frio de doer. Interessante: o que embeleza a vida muitas vezes traz desconforto, frio, dor. A natureza é rigorosa, oscila entre os extremos, e nós habitamos aquela fina camada de calor e conforto chamada cultura humana.

terça-feira, julho 19, 2005

in grasping...

"If what most people take for granted were really true—if all you needed to be happy was to grab everything and see everything and investigate every experience and then talk about it, I should have been a very happy person, a spiritual millionaire, from the cradle even until now…What a strange thing! In filling myself, I had emptied myself. In grasping things, I had lost everything. In devouring pleasures and joys, I had found distress and anguish and fear" (Thomas Merton).

Uma tradução possível: "Se o que diz o senso comum fosse realmente verdade -- se para ser feliz bastasse agarrar tudo e ver tudo e investigar cada experiência e então conversar sobre isso, eu teria sido uma pessoa muito feliz, um milionário espiritual, desde o berço até agora... Que coisa estranha! Ao encher-me de coisas, esvaziei a mim mesmo. Ao agarrar as coisas, eu as perdi. Ao devorar prazeres e alegrias, encontrei tristeza e angústia e medo" (Thomas Merton).

segunda-feira, julho 04, 2005

sierra





Eis a visão da Serra do Rio do Rastro.
Difícil esquecer.
Difícil não querer voltar.

sexta-feira, julho 01, 2005

desapego

Está aqui uma canção que acabei de fazer. A idéia é trazer de volta a importância das coisas simples, é o exercício do desapego.

Estender a esteira,
Sacudir a poeira,
Desatar as sandálias dos pés,
Entregar a moeda da mão
E o tesouro do seu coração.
Ir além da porteira
E cruzar a fronteira,
Não voltar mais os olhos pra trás,
Ignorar as estátuas e os sais
E os navios ancorados nos cais.

É preciso recusar,
É preciso esquecer,
É preciso não se apegar,
Porque tudo o que temos
Não é nada que somos,
Vida, vento, tempo, voz e chão.

Possuir as estrelas,
Dominar as alturas,
Ter a posse das constelações,
Já não creio em tais ilusões,
Quero gente, fogueira e canções,
Uma vida mais simples,
De alegrias constantes
E de amores intensos e sãos,
De desejos sinceros e bons,
Como um quadro de múltiplos tons.

sexta-feira, junho 10, 2005

só mais uma canção

Jorge, aqui vai um esboço... uns rabiscos. Quem sabe você toca adiante algumas linhas, refaz outras... Ainda não há métrica definida, apenas fragmentos. Minha idéia é pintar um quadro com várias imagens que refletem simplicidade

Simplicidade é a claridade de uma gota
que despenca de uma nuvem
e se debruça numa folha.
É a pedra solitária
que aguarda a vez
do próximo aguaceiro.
É o homem parado na beira da estrada.
É a sua sandália calada
a espera do rumo dos pés.
É o vento gelado
que vem das montanhas distantes
instantes eternos de paz e oração.
É o gesto inocente de alguma criança
que dança sozinha no meio da rua/parque/quintal
em pleno quintal
e enxuga uma lágrima
e colhe uma flor
e atira uma pedra
e sorri para o vento
que a abraça com paz.

confins da terra

Em minha lectio de ontem meditei sobre o Salmo 61. O versículo 2 diz: "Desde os confins da terra eu clamo a ti". O salmista sentia-se deslocado, distante dos grandes centros, distante dos espaços privilegiados de trabalho, vitória, honra, família, glória. Muito provavelmente ele está no deserto. Ele ora a partir da periferia, da borda do mundo. Isso dá o que pensar.

terça-feira, maio 24, 2005

sino ao longe

Gosto de apresentar velhos poemas a novos e velhos amigos.


Bate o sino ao longe
E o coração mendigo geme
Porque o som distante lhe traz a falta.
Falta do que mesmo?
Falta do não vivido,
Do jamais tocado,
Do infinito nada,
Da existência atempo,
A que nunca houve,
E até da que era uma vez
Mas findou-se.

Bate o coração ao longe
E perto do mendigo o sino,
A catedral,
O vitral misterioso,
O cheiro da eternidade,
A sombra do templo,
O sagrado.
E o que falta mesmo?
Falta nada.
Tudo se completa
No mínimo instante
Em que um sino ausente toca
Para um coração vazio.

terça-feira, maio 17, 2005

simplicidade

"Seguir nu o Cristo nu" (São Gerômino, que traduziu a Bíblia para o latim).

things we leave behind

No saguão de embarque do aeroporto de Congonhas (SP) há uma caixa de acrílico, logo na entrada onde as bagagens de mão são vistoriadas por um aparelho de raio X. Nessa caixa estão contidos vários objetos que os passageiros não puderam levar para dentro do avião: tesouras de cabelereiro, tesouras escolares, facas, canivetes suiços, réguas de metal e objetos cortantes de vários tamanhos. Muitos desses objetos são caros, outros são completamente banais, outros ainda parecem ser caseiros, gastos pelo uso, improvisados. Tem até um ursinho de pelúcia! Deve ter sido doloroso para aquela criança deixar para trás tal objeto de afeto e desejo.

Certos momentos de nossa vida exigem que tomemos difíceis decisões. Certas coisas que cultivamos, certos hábitos, certos valores, certos desejos que trazemos no bolso devem ser deixados para trás. Para continuar a viagem, é preciso abrir mão deles. Isso é sempre necessário, às vezes doloroso, nunca fácil. Por outro lado, só assim nossas mãos e corações podem ficam mais livres de apegos e interesses menores. Na verdade, nem podemos imaginar a liberdade que encontramos ao deixar essas coisas para trás -- "We can't imagine the freedom we find from things we leave behind" (Michael Card).

segunda-feira, maio 02, 2005

eixo

No fundo do poço
há plena paz de águas puras e límpidas,
ainda que abscônditas.

No centro da roda de engenho
o movimento é mínimo
quase nulo, neutro,
pois no eixo está a força contida
que sustém os braços abertos de quem gira.

No centro da Terra,
no coração quente e escuro da Terra,
ignorando tempestades, metrópoles,
aviões e bombardeios,
ondas e navios bravios,
pulsa a vida.

segunda-feira, março 21, 2005

água santa

A água é limpa
A água é clara
A água é alva
É água.

A água lava
Cada casa
Cada cara
Lava e cala.

A água não fala
Age, salutar,
Salta e cascata
Clareia e lança.

A água anda,
Andes, indígenas.
A água sara,
Saara, batistas.

Água atlântica,
Pacífica,
Índica,
Mediterrânica,
Benta,
Água santa.

o jumentinho

Ontem foi Domingo de Ramos. Jesus entrou na cidade de Jerusalém montado em um jumentinho e foi aclamado pela multidão que o saudava e louvava: "Hosana! Hosana ao que vem em nome do Senhor!". Se Jesus soube usar assim um animalzinho lerdo e teimoso para entrar na cidade de Jerusalém, há esperança para mim. Creio que Ele pode me usar também, lento que sou para aprender e compreender as coisas, em Seu Reino.

quinta-feira, março 10, 2005

Frutificar

"Somos chamados para ser frutíferos -- não bem-sucedidos, não
produtivos, não auto-realizados. Sucesso vem pela força, estresse e
esforço humano. Frutificação vem pela vulnerabilidade e pelo
reconhecimento de nossas fraquezas" (Henri J. M. Nouwen).

terça-feira, março 08, 2005

pedra e água

"A natureza da água é mole e a da pedra é dura. Entretanto, se você colocar uma vasilha cheia de água por cima de uma pedra, de modo que a água pingue gota a gota, esta vai cavar um buraco na pedra. Do mesmo modo, a Palavra de Deus é suave e nosso coração é duro. Assim, quando as pessoas ouvem a Palavra de Deus com freqüência, seus corações se abrem a Ele" (Aba Poemen).

quinta-feira, março 03, 2005

diálogo

Manter um diálogo honesto e profundo com a cultura brasileira pode ser um dos desafios mais interessantes e urgentes para um cristão que queira realmente evangelizar o povo que mora neste país.

terça-feira, março 01, 2005

grão

Gilberto Gil tem muitas pérolas. Sua definição de amor é uma dessas preciosidades: "o amor é como um grão, morre, nasce trigo, vive e morre pão".

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

un árbol

Nesse último final de semana, plantei uma árvore. Cavar a terra, sujar as mãos, suar, tudo muito básico e misterioso. A vida é um grande mistério. Uma mudinha de árvore está lá crescendo em segredo. O melhor de tudo é ver a alegria no rosto das crianças, o contato delas com as plantas, com a terra, com a vida.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

tonto

O mundo gira e gira nesta noite de sexta-feira, e para onde me leva? No contra-pé, entre o hoje e amanhã, fico me perguntando: para onde a vida me leva?

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

o sonho

O sonho da semente é o trigo
O sonho do padeiro, o pão
O sonho do poeta, o livro
O sonho do livro, a visão
O sonho da visão, a estrela
O sonho da estrela, o céu
O sonho do céu, o Filho Amado
que um dia nasceu em Belém
e foi qual semente que morre
e foi qual poeta que canta
e foi como a gente que parte
e que come pão, livro, estrela e céu

o sol

O sol brilha lá fora nesta segunda-feira de lutas, e dentro de mim também. Esta semana começam as aulas, a grande correria de um ano que promete grandes momentos e faz imensas ameaças. Que Deus me ajude a dar conta de tudo o que está proposto diante de mim.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

crer no bem

"Tenha a coragem de crer somente no que é bom. Não estou dizendo que você deve crer em ilusões. Quero dizer que você deve apenas fazer o que é verdadeiro e bom e acreditar que os outros vão fazer o mesmo" (Sophie Scholl, estudante de biologia executada pelos nazistas em fevereiro de 1943, com apenas 21 anos).

Viva a memória de Sophie Scholl, Hans Scholl e Christoph Probst -- os jovens sonhadores do The White Rose.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

recomeçar

Recomeçar, retornar ao Pai, ao centro, ao coração, voltar às origens, à vocação, ao chamado primeiro, básico da vida: essa parece ser a essência da vida cristã. É assim na oração, é assim na convivência com as pessoas da Igreja, é assim no exercício dos nossos dons, é assim na nossa vida em família...

Falta de fé parece então consistir em desistir de retornar, de tentar mais uma vez. O que não crê se entrega nos braços do (des)espero, do não esperar mais nada das pessoas, de si mesmo, de Deus.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

terça-feira, fevereiro 15, 2005

vida contemplativa

Cada vez mais percebo que todas as áreas da minha vida passam pela oração e dependem dela para ter sentido, energia e algum sucesso, até mesmo as atividades profissionais e acadêmicas. Vejo também que a oração contemplativa é uma experiência que pode me ajudar a superar fracassos, quando os demais planos simplesmente falham.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

olhos abertos

Em Pedra Lisa só pude orar de olhos abertos. Cada vez que fechava os olhos ouvia um pássaro cantar e dar um vôo rasante, uma manga caindo do pé, um som de chuva chegando, as águas do riacho, as vozes das crianças. Então elevava os olhos para as montanhas e a oração se misturava com a vibração de todas as cores e sons da criação.

Pedra Lisa

Nesse último final de semana estive em retiro com a Igreja Presbiteriana de Macaé. Ficamos em um hotel-fazenda chamado Pedra Lisa. O hotel fica em um vale aos pés de uma montanha de mais de 300 metros de altura. Passei um bom tempo admirando aquele bloco maciço de pedra.

Aquele lugar tinha sido uma fazenda de cana-de-açucar em tempos do Brasil colonial, onde foi usada mão-de-obra escrava. Depois se tornou uma fazenda de café, e agora um local de descanso e lazer.

Enquanto contemplava a montanha, imaginei o que ela deve ter testemunhado ao longo da nossa história: os índios que habitavam ali originalmente, os portugueses chegando, as caçadas, os desmatamentos. As primeiras construções surgindo. Os escravos sendo trazidos para trabalhar na fazenda. Os espancamentos, as prisões, os batuques na senzala. Depois os caboclos subindo e descendo as picadas, plantando e colhendo café. Quase ouvi as vozes do passado.

Percebi que a nossa noção de tempo é bem nossa, bem humana. As pedras, os riachos, as árvores têm outro ritmo, outra pulsação. Aprendi muito com eles a respeito de simplicidade, humildade e humanidade.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

rabiscos para uma canção

Quanta coisa é preciso contar
Quanto coisa é preciso conter
Tanta coisa é preciso dosar
Tanta coisa é preciso dizer

Tanto fato pra se olvidar
Tanta foto pra se devolver

distração e concentração

Impressionam-me cada vez mais as distrações que a vida contemporânea traz: televisão, telefone, internet, rádio, video-game, sem falar dos inúmeros livros que são lançados a cada semana. Tanta coisa pra fazer, tanta coisa pra ler, tanto site pra visitar, mas tudo muito solto e desconexo. Sinto que preciso de um foco mais nítido e claro, quero aprender a dizer não, a fugir de certas distrações que apenas ocupam a mente e trazem pouco crescimento. Concentração, voltar ao centro, ao eixo de minha vida, ao coração, e ali encontrar meu Criador e ouvir Sua voz, não o simples vazio ou o som do sangue em minhas veias.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

tempo, inocência e experiência

Vejo que a vida nos torna mais experientes a cada ano que passa, mas distancia-nos da inocência. Facilmente a decepção e a amargura podem nos fazer refens de nossas próprias memórias e nos aprisionar em uma grade invisível de ceticismo e desânimo. Envelhecer, mantendo a alma intacta, é um respeitável desafio.

terça-feira, janeiro 11, 2005

quero ser uma oliveira

Ontem li o Salmo 52. O salmista se compara a uma oliveira plantada no pátio do templo de Jerusalém. Quero ser assim também. Quero aprender a permecer no pátio da casa de Deus, ficar quieto em sua presença, beber a água da chuva, alimentar-me da luz do sol, cravar as raízes em solo santo, sentir o vento passando por mim, abrigar alguns pássaros, cumprimentar as pessoas que chegam para louvar a Deus, e vê-las depois indo para casa.

Ensina-me, Senhor, a ser calmo e humilde como as árvores. Que meus frutos ainda sirvam pra abençoar, quem sabe, alguém.

Gladir

quero ser oliveira

Feito um rei Davi em pleno verão de 2005, quero ser uma oliveira plantada na casa do Senhor. Quero aprender a permenecer nele, esperar o sol, o vento, a chuva, ver as pessoas passando ao redor, enfrentar tempestades, raios e trovões, mas sempre perto da sua casa, no quintal de Deus.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

voz

A voz é o que há de mais nosso, vem de nossos pensamentos e desejos mais profundos. A voz às vezes emudece, às vezes hesita, às vezes se arrisca. Quero me arriscar e vencer o círculo de silêncio e vácuo, expressar sentimentos e vontades, uma intenção.

É isso.

Gladir Cabral