sexta-feira, janeiro 12, 2007

sem lenço e sem documento

Semblante pesado, irado mesmo, cheio de desespero e pesar pela morte da esposa e de outro filho, o pai de Sundar Singh pronuncia para ele as palavras formais de expulsão e deserdamento: “Nós te rejeitamos para sempre e te expulsamos de nossa presença. Tu não serás mais meu filho. Nós não te conhecemos mais. Para nós, tu és como alguém que jamais nasceu. Tenho dito”.

“Eu jamais me esquecerei da noite em que fui expulso de casa. Dormi debaixo de uma árvore, e estava muito frio. Jamais havia experimentado algo assim. Pensei: ‘Ontem eu vivia no conforto. Agora estou tremendo de frio, estou faminto e tenho sede. Ontem eu tinha tudo de que precisava e muito mais; hoje não tenho abrigo, nem o calor de minhas roupas, nem comida’. Por fora a noite era difícil, mas eu era tomado por uma maravilhosa alegria e paz em meu coração. Eu estava seguindo os passos de meu novo mestre – Yesu, que não tinha onde reclinar a cabeça, e que fora desprezado e rejeitado. No luxo e no conforto de minha casa eu não tinha paz. Mas a presença do Mestre transformou meu sofrimento em paz, e sua paz jamais me andonou” (Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 28-9).

terça-feira, janeiro 09, 2007

leão ou chacal


Após a conversão de Sundar Singh, houve grande tumulto na cidade. A escola protestante foi fechada, os missionários tiveram que fugir para Ludhiana. Em casa, o pai de Sundar tentou dissuadi-lo dessa nova fé:

“Meu querido filho – luz dos meus olhos, conforto do meu coração – que você tenha vida longa! Como seu pai, eu clamo para que você considere sua família. Certamente você não deseja que o nome de sua família caia em desgraça. Certamente essa religião cristã não ensina a desobediência aos pais. Eu ordeno que você cumpra o seu dever e se case. Já escolhi uma noiva, como é nosso costume, e tudo está preparado. Como presente de noivado, eu vou lhe deixar uma herança de 150.000,00 rúpias, que garantirão a você e à sua família uma vida confortável e segura. Seu tio ainda vai lhe dar uma grande herança em ouro.

“Estou sendo bem razoável, meu filho. Mas se você se recusar a ouvir-me, então saberei que está disposto a desonrar sua família, e não terei outra alternativa senão deserdá-lo. Você está usando o bracelete de um Sikh, você está usando cabelos compridos como um sinal de um Sikh, você tem o sobrenome de um Sikh. Será que você se esqueceu do significado do nome que nossos pais adotaram? Você esqueceu o que significa ser um Singh?

“Não, pai; esse nome quer dizer ‘leão’.

“Você sabe o significado de nosso nome, e ainda assim age como um chacal do deserto. Por quê? Chegou o tempo de você fazer sua escolha”.

Sundar Singh voltou ao seu quarto e orou. Então cortou seu cabelo (The Wisdom of the Sadhu, p. 27-8).

quarta-feira, janeiro 03, 2007

encontro

“Embora naquele tempo eu me considerasse um herói por ter queimado os Evangelhos, meu coração não encontrava paz. Na verdade, minha inquietação só aumentava, e eu me sentia um miserável pelos próximos dois dias. No terceiro dia, quando não conseguia mais suportar a angústia, levantei-me às 3h da madrugada e orei para que, se Deus existisse afinal, que ele se revelasse a mim. Se eu não recebesse uma resposta até o amanhecer, eu colocaria minha cabeça nos trilhos do trem e buscaria a resposta além da fronteira desta vida.

“Eu orei e orei, esperando pela hora de fazer minha última caminhada. Lá pelas 4h30 eu vi algo estranho. Havia um brilho na sala. No início pensei que havia fogo na casa, mas olhando através da porta e das janelas, eu não pude ver o que produzia a luz. Então me ocorreu um pensamento: talvez isso seja uma resposta de Deus. Então voltei ao meu lugar de costume e orei, olhando para a estranha luz. Então vi uma figura na luz, estranha mas de alguma forma familiar. Não era Shiva nem Krishna nem qualquer outra encarnação hindu que eu esperava encontrar. Então ouvi uma voz falando na língua urdu: ‘Sundar, até quando você irá rir de mim? Vim para salvá-lo, pois você orou para encontrar o caminho da verdade. Então por que você não a aceita?’ Foi aí que pude ver as marcas de sangue em suas mãos e em seus pés e reconheci que era Yesu, que os cristãos proclamavam. Caí aos seus pés. Eu estava cheio de profunda tristeza e remorso por causa dos meus insultos e pela minha irreverência, mas também sentia uma maravilhosa paz. Essa era a alegria que procurava. Era o céu… Então a visão se desvaneceu, embora minha paz e alegria permaneceram.

“Quando me levantei, fui imediatamente acordar meu pai e dizer a ele o que eu havia experimentado – dizer-lhe que agora eu era um seguidor de Yesu. Ele me disse para voltar para cama. ‘Ora, antes de ontem você estava queimando livros sagrados dos cristãos. Agora você diz que é um deles. Vá dormir, meu filho. Você está cansado e confuso. Amanhã você se sentirá melhor’” (Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 25-6).