quinta-feira, março 16, 2006

o tijolo e o cão



Estive recentemente em Campinas e pude visitar o Seminário Presbiteriano do Sul, escola teológica que foi minha casa durante quatro anos preciosos de minha vida. Como sempre, a primeira coisa que faço ao chegar lá é conferir a pegada de um cão num dos tijolos do velho Seminário. Para mim aquela marca na parede me fala ao coração. Algum cão perdido, lá pelos idos de 1940 (talvez antes), passou por uma olaria e pisou um tijolo mole, que depois foi levado ao forno, vendido, manuseado pelos pedreiros que construiram o seminário e tiveram a bela idéia de deixar aquela marca do lado de fora das paredes duplas.

Aquelas pegadas me falam de um animal ausente, inominado, desconhecido, mas presente em minhas melhores lembranças e sentimentos do Seminário. É só uma marca na parede, mas como fala! Assim é Deus em nossa vida, sinal de uma ausência eterna, e ao mesmo tempo eterna presença, profunda em nós. Quando vejo a marca sinto saudades, sinto saudades de Deus, daquele que um dia pisou este chão, moldou este barro e ficou em silêncio. Em silêncio fico eu enquanto medito nessas coisas. Dentro de mim tem a pegada de um Deus.

sexta-feira, março 10, 2006

a eternidade



"Não há folha que não esteja sob os Teus cuidados. Não há grito que, antes de ser emitido, Tu já não tenha ouvido. Não há água nas rochas que lá não fosse escondida pela Tua sabedoria. Não há fonte oculta que não tenha sido ocultada por Ti. Não há grotão para uma casa solitária que não fosse planejada por Ti para ser uma casa solitária. Não há homem neste acre de matas que não tenha sido feito por Ti para este acre de matas. Porém, há mais consolo na substância do silêncio do que na resposta a uma pergunta. A eternidade está no presente. A eternidade está na palma da mão. A eternidade é uma semente de fogo cujas raízes bruscas derrubam as barreiras que impedem meu coração de ser um abismo" (Thomas Merton, Diálogos com o Silêncio, 2003, p. 89).

quinta-feira, março 02, 2006

lembranças de Valinhos (SP)

Caminhar lentamente
A cada passo sorrir
Fechar os olhos como quem voa
E ouvir o som das aves
Pousar a respiração na brisa do vento
Sentir o coração pulsando
Pensando, pausando
Sem pressa
Ver as árvores que se postam caladamente
Verdes e belas
Resistentes a tudo
Obedientes ao Sol
Generosas
Presentes
E fincar raízes