quinta-feira, dezembro 28, 2006

luta interior


O menino Sundar Singh estava em grande conflito espiritual depois da morte de sua mãe. Os livros sagrados já não lhe traziam alento, ao mesmo tempo apareceram missionários cristãos, que lhe confundiam a cabeça com um conceito novo de Deus, uma outra visão de mundo. A primeira reação do menino era a rejeição completa dessa nova alternativa de fé, reação até violenta.

“Essa não é a verdade de minha mãe, de nossos ancestrais, de nossa cultura. Essa é uma verdade estrangeira, que nos foi trazida do exterior por pessoas que não entendem nosso jeito de ser. Mas então porque meu pai me faz freqüentar uma escola cristã? Prefiro uma escola pública em Sanewal. Estou disposto a caminhar 16 quilômetros através do deserto. Eu sou um Sikh. Vou mostrar a eles. Vou mostrar ao meu pai o que é que penso desses colonizadores e seu estilo de vida ocidental, sua fé estrangeira...”

Sundar Singh chegou a jogar pedras em seus professores, atrapalhar as aulas, ridicularizar os missionários e rasgar e lançar no fogo as Escrituras Sagradas dos cristãos, coisa que nunca foi feita naquele vilarejo. Desesperado, o pai de Sundar Singh vai até ele, para exortá-lo:

“Você está louco? Por que fazer isso? É esse o respeito pelas coisas sagradas que você aprendeu de sua mãe? É assim que você agradece aos que lhe dão o ensino? Não cometa tal blasfêmia em minha presença. Como seu pai e chefe da casa, eu lhe ordeno a parar com essa insanidade. Chega de livros queimados!” (Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 17-8).

quinta-feira, dezembro 21, 2006

sede


Em sua busca, o menino veio ao sadhu que vivia na floresta:

Sadhu-ji, você diz que minha fome e minha sede são ilusão, armadilhas de maya. Somente Brahma é a verdade. Brahma é a fonte divina de todas as coisas, você diz; Brahma é Deus. Você diz que eu verei que sou uma parte de Brahma, e que assim que isso acontecer, minhas necessidades cessarão de preocupar-me. Perdoe-me, Sadhu-ji, e não fiques irritado comigo, mas como isso pode acontecer? Se eu sou Brahma ou parte dele, como posso ser enganado por maya? Como pode a ilusão ter poder sobre mim? Pois se a ilusão tem poder sobre a verdade, então a verdade é em si mesma ilusão. É a ilusão então mais forte que a verdade?

Sadhu-ji, você diz que eu tenho que esperar. Você diz que ganharei conhecimento das coisas espirituais quando crescer. Minha sede será saciada. Mas será que isso vai acontecer? Não é a comida a resposta para a fome? Não é a água a resposta para a sede? Se um garoto faminto pede pão, pode seu pai responder: ‘Vá brincar! Quando você ficar mais velho, entenderá a fome e então não precisará mais de pão?’ Se você, Sadhu-ji, encontrou o entendimento que procuro, se você encontrou certeza e paz, por favor me diz como posso encontrá-los. Se não, então me diz, e eu continuarei minha busca. Não posso descansar até encontrar paz” (Wisdom of the Sadhu, p. 15-6).

sexta-feira, dezembro 15, 2006

santi

Quando menino, Sundar Singh ficava horas e horas aos pés de seu mestre guru aprendendo os conceitos fundamentais da sua religião, como maya (ilusão) ou jnana (fome de certeza e conhecimento). Sacerdotes Sikhs haviam ensinado muitas coisas a ele, mas o menino ainda não estava satisfeito.

Sundar Singh podia recitar o Guru Granth Sahib inteiro, que era o livro sagrado dos Sikhs, mas não havia como matar a sua sede. Sabia recitar de cor os Upanishads, os Darsanas, o Bhagavad Gita e os Shastaras dos hindus; até mesmo o Alcorão e o Hadis da religião islâmica. Sua mãe era temente a Deus e reconhecia que seu filho era um peregrino, um sadhu.

Seu pai é que ficava preocupado. Ele perguntou a Sundar certa vez: “Por que você se atormenta com questões religiosas?”. O garoto respondeu: “Eu preciso de santi. Eu preciso de paz”.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

na caverna


Um dia, nos Himalaias, Sadhu Sundar Singh ficou sabendo de um lama budista que vivia numa caverna nas montanhas. Ele havia fechado a entrada da caverna com um muro, deixando apenas uma pequena abertura para a passagem do ar. Vivia apenas de chá e cevada tostada. Como já vivia há muitos anos na completa escuridão, ficou cego. Queria ficar ali para o resto da sua vida. Sundar Singh foi visitá-lo e encontrou-o orando e meditando; ficou esperando do lado de fora da caverna, até o lama terminar suas orações. Então perguntou se podia conversar com ele um pouco através do buraco na parede. Primeiro, Sundar Singh perguntou: “O que você tem ganho ao viver uma vida de isolamento e meditação? Buddha não havia ensinado nada sobre um Deus a quem se pudesse orar. A quem ele orava, então?"

Ele respondeu: “Eu oro a Buddha, mas não espero ganhar nada com minha oração nem com minha vida de isolamento. É justamente o oposto, eu procuro libertar-me de todo desejo de ganho. Eu busco o nirvana, a eliminação de todos os sentimentos e todos os desejos – seja de dor ou de paz. Mas ainda vivo em trevas espirituais. Não sei qual será o meu fim, mas estou certo que seja qual for que me falte neste vida, alcançarei na outra”.

Sundar Singh então respondeu: “Certamente seus desejos e sentimentos brotam do Deus que o criou. Eles certamente foram criados a fim de serem satisfeitos, não reprimidos. A destruição de todos os desejos não pode levar ao alívio, mas somente ao suicídio. Nossos desejos não são inseparavelmente ligados à continuação da vida? Até mesmo a idéia da eliminação dos desejos é infrutífera. O desejo de eliminar todo desejo já é em si um desejo. Como podemos encontrar alívio e paz pela simples substituição de um desejo por outro? Certamente, não se acha paz pela eliminação do desejo, mas pelo encontro da sua realização e satisfação nAquele que o criou.

O lama terminou a conversa dizendo: “Veremos o que veremos”.

posso brincar com Jesus?

Leia: Isaías 9:1-7

"O menino crescia e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele".
Lucas 2:40

No dia seguinte, enquanto José e Maria reformavam e limpavam sua casinha, Jesus brincava sobre uma esteira colocada à sombra de uma oliveira florida. Ainda era cedo quando o pequeno Perez apareceu junto ao portão:

– Tio José, posso brincar com Jesus?

– Claro, meu filho, pode entrar. Mas cuidado, ele ainda é pequeno. Não deixa ele colocar esses toquinhos de madeira na boca.

E assim Perez passava horas e horas na companhia de seus tios, brincando com o curioso e esperto menino chamado Jesus.

Como toda criança, Jesus dava boas gargalhadas com as caretas do primo. E acompanhava com olhar atento e sério a cavalgada veloz de um toquinho de madeira que acabara de virar um cavalo alazão. Mais adiante, as areias do quintal viravam montanhas onde pastavam ovelhas, que antes eram pedrinhas espalhadas pelo chão. Jesus acompanha o movimento de uma certa ovelhinha teimosa que acaba se perdendo do rebanho. Então, Perez mostra a Jesus o pastorzinho (que antes era apenas um graveto de oliveira) ir em busca da ovelhinha perdida. Mais adiante, Perez mostra a Jesus duas cascas de nozes, que agora são dois barquinhos navegando pelo mar, pelo mar da Galiléia, logo ao lado da esteira onde Jesus está sentado, e acaba de fazer xixi.

– Tia Maria!

ORAÇÃO

Como seria bom que toda criança pudesse brincar contigo, Jesus. Mas podemos deixar nossos filhos brincarem aos teus pés e serem abençoados por tua alegria.

terça-feira, dezembro 12, 2006

voto de silêncio

“No dia seguinte, fui ver um sadhu que havia feito voto de silêncio. Ele era um autêntico buscador da verdade. Não falava há seis anos. Fui a ele e fiz algumas perguntas: ‘Deus não nos deu língua para que pudéssemos falar? Por que não usar a sua para louvar e adorar o Criador em vez de ficar em silêncio?’

Sem qualquer sinal de orgulho ou arrogância, ele respondeu-me escrevendo numa losa: ‘Você está certo, mas minha natureza é tão maligna que eu não tenho esperança de que nada de bom saia de minha boca. Tenho permanecido em silêncio por seis anos, mas minha natureza permanece má, então é melhor ficar em silêncio até receber alguma bênção ou uma menssagem que possa ajudar outras pessoas’” (Sadhu Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 11).

segunda-feira, dezembro 11, 2006

cinco fogueiras


“Mais tarde, encontrei outro sadhu. No calor do verão, ele ficava sentado entre as cinco fogueiras – isto é, quatro ao redor dele e o sol queimando em sua cabeça. No inverno ele ficava horas em pé dentro da água gelada. Mas a expressão do seu rosto era marcada pela tristeza e pelo desespero. Fiquei sabendo que aquele homem vinha fazendo esse exercício há cinco anos. Aproximei-me dele e perguntei: ‘O que você ganhou com essa disciplina? O que aprendeu?’ Ele respondeu com tristeza: ‘Não espero ganhar nada nem aprender nada nesta vida, e sobre o futuro nada posso dizer’” (Sadhu Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 11).

quinta-feira, dezembro 07, 2006

de cabeça para baixo


“Encontrei um outro sadhu fazendo penitência. Seus pés estavam atados com uma corda e ele estava pendurado de cabeça para baixo no galho de uma árvore. Quando terminou seu exercício e estava descansando debaixo da árvore, perguntei a ele: ‘Por que você faz isso? Qual o objetivo dessa tortura?’ Ele respondeu: ‘As pessoas ficam muito admiradas de me ver pendurado de cabeça para baixo na árvore, mas lembre-se, o Criador põe toda criança de cabeça para baixo no ventre de sua mãe. Este é meu jeito de servir a Deus e fazer penitência. Aos olhos do mundo isso parece tolice, mas por meio deste exercício eu faço lembrar a mim e aos outros que todos estamos presos ao pecado e levamos uma vida que, aos olhos de Deus, está de cabeça para baixo. Eu tento me colocar de cabeça para baixo de novo e de novo até que eu me coloque de pé aos olhos de Deus’.

“É verdade que o mundo está de cabeça para baixo e que seus caminhos estão pervertidos. Mas será que podemos nos corrigir por nossas próprias forças? Será que não deveríamos, ao invés disso, voltar para Deus, o único que pode consertar o que está errado e libertar-nos de maus pensamentos e desejos?” (Sadhu Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 10-11).

papo cabeça


Nada como um bom papo cabeça, estar com a pessoa certa no lugar certo.

terça-feira, dezembro 05, 2006

cama de pregos


Uma vez em Haridwar encontrei um sadhu deitado em uma cama de pregos. Fui até ele e perguntei: “Por que você se fere e se tortura assim?” Ele respondeu: “Você também é um sadhu. Não sabe por que faço isso? É por penitência. Estou destruindo a carne e os seus desejos. Eu sirvo a Deus desse modo, mas ainda sinto claramente a dor dos meus pecados e a maldade dos meus desejos. Na verdade, a dor deles é muito pior do que a dor destes pregos. Meu objetivo é matar todos os desejos e assim encontrar libertação de mim mesmo e união com Deus. Venho fazendo este exercício por dezoito meses, mas ainda não alcancei meu objetivo. Em verdade, não é possível encontrar libertação num tempo tão curto; levará muitos anos, até mesmo vidas, até que eu tenha esperança de libertação”.

Então considerei na vida desse homem. Devemos nos torturar através de muitas vidas para alcançar a verdadeira paz? Se não atingirmos nosso objetivo nesta vida, por que haveria de haver outra chance em outra vida? Isso será possível até mesmo em milhares de milhares de vidas? Pode esse tipo de paz ser mesmo alcançada pelos nossos próprios esforços? Não seria essa paz um dom de Deus? Certamente temos de buscar a vida de Deus, não a morte da carne. (Sadhu Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 9-10).

domingo, dezembro 03, 2006

influência


“Embora minha família fosse sikh, tínhamos uma grande reverência pelas escrituras hindus. Minha mãe era um exemplo vivo do amor de Deus e uma seguidora devota dos ensinamentos hindus. Todos os dias ela acordava antes do amanhecer, preparava-se com a água fria do banho ritual e lia uma passagem da Bhagavad Gita (o livro sagrado dos hindus) ou de outros escritos sagrados. Sua vida pura e sua devoção completa me influenciaram mais fortemente do que aos outros membros da família. Desde minhas primeiras lembranças, ele ensinou-me uma regra acima de todas as outras: quando eu acordar, meu primeiro dever era orar a Deus pedindo alimentação espiritual e bênçãos. Só depois eu poderia tomar o café da manhã. Às vezes eu questionava essa regra e insistia em tomar café primeiro, mas minha mãe jamais permitia. Geralmente com suavidade, mas se necessário com a força, ela deixou essa regra marcada no fundo de minha alma: ‘Buscai primeiramente a Deus e somente depois às outras coisas’.

“Naquela época eu era jovem demais para reconhecer o verdadeiro valor da sua educação, e eu resistia a ela. Mais tarde, contudo, vim a apreciar seu exemplo. Sempre que me recordo agora de sua amorosa orientação, não canso de agradecer a Deus por ela. Pois ela plantou em mim, e cultivou no início de minha vida, um profundo amor e temor por Deus. Ela carregava uma grande luz dentro de si, e seu coração era o melhor treinamento espiritual que alguém poderia ter: ‘Você não deve viver descuidademente nem mundanamente’ , ela dizia. ‘Busque paz espiritual e ame a Deus sempre. Um dia você se consagrará completamente à busca, você deverá seguir o caminho de um sadhu’ (um asceta)” (Sadhu Sundar Singh, Wisdom of the Sadhu, p. 5-6).

festa da justiça

Leia: Malaquias 3:1-5

"Vejam, eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim...".
Malaquias 3:1

Um mundo sem justiça é um mundo triste para se viver. E se é difícil para os adultos viverem nele, é muito mais difícil para nós que somos crianças. Se um adulto é pobre, se não tem o suficiente para se vestir, pelo menos pode lutar, pode tentar gritar, implorar. Nós crianças somos cercadas pelo medo por todos os lados. Nós, crianças pobres, estamos entre os mais pobres seres da terra. O que temos, quase sempre quase nada, levamos a nossos pais. Os que não têm pais, vivem jogados pelas ruas.

Quando chega o tempo de festa, o tempo do Natal, nossa dor aumenta mais ainda, pois fica muito mais clara a distância entre os que têm dinheiro para fazer festa, comprar presentes, e os que não têm nem festa, nem presente, nem família, nem esperança.

Alguma coisa me diz que essa festa de Natal não é dos ricos. Algo me diz que a festa que Deus quer fazer é a da mudança deste mundo. Um Deus que vem queimando como um fogo, lambendo o mato, varrendo a Terra de tudo o que não presta.

Quando alguém explora o trabalho de uma criança, faz algo monstruoso. Destrói a infância, que não volta, a esperança, tira o sonho da gente e deixa na cabeça um pesadelo que sempre volta.
O profeta falou: Deus virá, que o mensageiro prepare o caminho.

ORAÇÃO

Ai, Senhor. Que o nosso Natal não vire uma festa de uns poucos bacanas. Que seja, sim, um tempo de desejar vinda do Deus da justiça e do amor. Por Jesus, amém.

PENSE

“O Bom Pastor fala e Suas ovelhas ouvem a sua voz. Mas algumas ovelhas estão tão ocupadas balindo, que não conseguem ouvir a voz do Grande Pastor” (A. W. Tozer).

sábado, dezembro 02, 2006

gramado molhado


Chegada a Gramado (RS) em dia de chuva.

sexta-feira, setembro 22, 2006

mais cartas a Deus


Querido Deus,
Eu acho que o grampeador é uma das suas melhores invenções.
Ruth

Querido Deus,
Eu penso em você às vezes, mesmo quando não estou orando.
Elliott

Querido Deus,
Eu aposto que é muito difícil para você amar todas as pessoas do mundo. Tem somente quatro pessoas em nossa família e mesmo assim eu não consigo fazer isso!
Nan

Querido Deus,
De todas as pessoas que trabalharam pra você, eu gosto mais de Noé e Davi.
Rob

Querido Deus,
Se você olhar pra mim domingo, vou lhe mostrar meus sapatos novos.
Mickey

Querido Deus,
Nós lemos que Thomas Edison inventou a luz. Mas na Escola Dominical, nós aprendemos que foi você que fez isso. Então eu aposto que ele roubou a sua idéia.
Donna

Querido Deus,
Ninguém pode ser um Deus melhor que você. Bem, só quero lhe dizer que não estou dizendo isso só porque você já é Deus.
Charles

Querido Deus,
Eu não achava que laranja e púrpura combinavam, até que eu vi o pôr-do-sol que você fez na terça-feira. Aquilo foi legal!
Eugene

Querido Deus,
Talvez Caim e Abel não se matassem se cada um tivesse o seu próprio quarto. Isso funciona comigo e com meu irmão.
Larry

terça-feira, setembro 19, 2006

cartas para Deus

Querido Deus,
Em vez de deixar as pessoas morrerem e ter que fazer outras novas, por que você não fica com as que já tem?
Jane

Querido Deus,
Quem desenha a linha entre os países?
Nan

Querido Deus,
Fui a um casamento e os noivos se beijaram dentro da igreja. Isso tá certo?
Neil

Querido Deus,
Muito obrigado pelo meu irmãozinho, mas eu tinha pedido um cachorrinho.
Joyce

Querido Deus,
Chuveu durante nossas férias inteirinhas e meu pai ficou louco de raiva!
Ele disse algumas coisas sobre você que não se deve dizer, mas espero que você não o castigue por isso.
Seu Amigo (mas não vou dizer meu nome)

terça-feira, setembro 05, 2006

mar e meditar


"Sim, todos sabem que a meditação e o mar estão unidos para sempre" (Herman Melville, Moby Dick, 1851).

quinta-feira, agosto 31, 2006

além da visão

"Eu tenho um jeito muito simples de orar. Ele é centrado inteiramente na atenção à presença de Deus e à sua vontade e seu amor. Isto é, ele é centrado na fé tão somente pela qual podemos conhecer a presença de Deus. Alguém pode dizer que isso dá à minha meditação o caráter descrito pelo Profeta como 'estar diante de Deus como se o estivesse vendo'. No entanto, isso não quer dizer imaginar algo ou conceber uma imagem precisa de Deus, pois para minha mente isso seria uma forma de idolatria. Pelo contrário, trata-se de adorá-lo como um ser invisível e infinitamente além da nossa compreensão e compreendê-lo como tudo. Minha oração pende para o que você chama 'fana'. Há em meu coração uma grande sede de reconhecer totalmente o vazio de tudo o que não é Deus. Minha oração é então uma forma de louvor elevando-se do centro do Nada e do Silêncio."

Thomas Merton, em uma carta a um paquistanês sufi chamado Abdul Aziz (Merton, Dialogues with Silence, xvi).

domingo, agosto 27, 2006

brilho e escuridão

"Teu brilho é minha escuridão. Nada sei de ti e, por mim mesmo, não posso nem mesmo imaginar como conhecer-te. Se eu te imagino, caio em erro. Se te entendo, engano-me. Se estou consciente e certo que te conheço, sou louco. A escuridão é suficiente" (Thomas Merton [1941], Dialogues with Silence, 2001).

sábado, agosto 26, 2006

orações e elefantes


Caminhando por Vancouver, passei por uma loja de antiguidades com um cartaz interessante na vitrine. Não resisti.

perguntas e respostas

"Ache a pergunta correta antes de ficar confuso ou intoxicado por uma profusão de respostas" (Laurence Freeman, Jesus: o mestre interior, p. 7).

quarta-feira, julho 26, 2006

a Verdade Nua e a Parábola

A Verdade Nua caminhou pela rua um dia.
As pessoas viraram o olhar para outro lado.

A Parábola chegou, adornada e bem vestida.
As pessoas a saudaram com alegria.

A Verdade Nua sentou-se solitária, triste e despida.
"Por que você está tão triste?" -- perguntou a Parábola.

A Verdade Nua respondeu: "Não sou mais bem-vinda.
Ninguém quer me ver. Eles me expulsam de suas portas."

"É difícil olhar para a Verdade Nua" -- comentou a Parábola.
"Deixa-me vesti-la um pouco. Certamente, você será bem recebida".

A Parábola vestiu a Verdade Nua com um vestido fino feito de narrativa,
com metáforas, uma prosa incisiva e enredos cheios de inspiração.

Com riso e lágrimas e aventura a se revelar,
juntas elas começaram a desfiar uma estória.

As pessoas abriram suas portas e serviram a elas o que havia de melhor.
A Verdade Nua vestida de estória era uma convidada muito bem-vinda.

(conto judaico, readaptação de Heather Forest)

sábado, julho 08, 2006

Jumento

A abordagem que C.S. Lewis faz do amor romântico ou "eros", como ele prefere chamar, é muito profunda, talvez a parte mais produnda do seu livro, e ainda assim divertida em certas partes.

Ele faz alusão a Francisco de Assis, que chamava seu próprio corpo de "Irmão Jumento".

"O termo Jumento está muito bem empregado porque ninguem em sã consciência pode venerar ou odiar um jumento. Ele é um animal útil, resistente, malandro, obstinado, paciente, adorável e irritante; às vezes merecendo chicote, às vezes cenoura; ridículo e absurdamente belo. Assim é o nosso corpo" (C.S. Lewis The Four Loves, p. 101).

terça-feira, julho 04, 2006

amizade ou cumplicidade

"A amizade (como diziam os antigos) pode ser uma escola de virtude; mas também (como eles não percebiam) uma escola do vício" (C.S. Lewis, Four Loves, p. 80).

Faca de dois legumes.

domingo, julho 02, 2006

a pergunta é o que vale

"A pessoa que concorda conosco que uma questão, pouco valorizada pelos demais, é importante pode ser nosso Amigo. Ele não precisa concordar conosco sobre a resposta" (C.S. Lewis, Four Loves, 66).

a amizade é inclusiva

"Lamb diz em algum lugar que se, de três amigos (A, B e C), o A morrer, então o B perde não apenas o A mas um pedaço do A que está no C, enquanto o C perde não apenas o A mas a parte do A que está no B. Em cada um dos meus amigos há algo que apenas um outro amigo pode extrair plenamente. Por mim mesmo, não sou grande o bastante para invocar a inteireza de um ser humano; preciso de luzes que não a minha para revelar todas as suas facetas. Agora que Charles está morto, nunca mais verei a reação de Ronald a uma brincadeira qualquer de Caroline. Longe de ter mais do Ronald, tê-lo para mim mesmo, agora que Charles se foi, eu tenho menos do Ronald. Portanto, a verdadeira amizade é o menos ciumento dos amores. Dois amigos se alegram ao receberem um terceiro, e três ao receberem um quarto amigo, se aquele que vier for mesmo um amigo verdadeiro. Eles podem então dizer como as almas benditas em Dante: 'Ali vem alguém que fará aumentar nosso amor'" (C.S. Lewis, Four Loves, p. 61).

é namoro ou amizade?

Não são muitos os pensadores cristãos que se debruçaram especificamente sobre o tema da amizade. Dietrich Bonhoeffer e C.S. Lewis parecem ser duas pedras preciosas para quem deseja refletir mais profundamente sobre a comunhão humana.

É muito interessante a distinção que C.S. Lewis traça entre amor romântico e amizade pura e simples: "Os amantes estão sempre falando um ao outro sobre seu amor; os amigos quase não comentam sobre a amizade. Os amantes estão geralmente face a face, absortos um no outro; os amigos, lado a lado, estão absortos em algum interesse comum. Acima de tudo, Eros (quando dura) é necessariamente entre duas pessoas apenas. Mas dois, longe de ser o número necessário para uma amizade, ainda nem é o número ideal" (Four Loves, p. 61).

sexta-feira, junho 30, 2006

claro, escuro

Um rabi perguntou a seus alunos: "Quando é que dá, ao amanhecer, para distiguir a luz das trevas?" Um estudante respondeu: "Quando distingo um bode de um macaco". "Não", respondeu o rabi. Um outro disse: "Quando eu distingo uma palmeira de um figo". "Não", respondeu o rabi de novo. "Bem, então qual é a resposta?", seus alunos o pressionaram. "É quando você se olha o rosto de cada homem e de cada mulher e se vê nele seu irmão e sua irmã", disse o rabi."Só então você viu a luz. Tudo o mais é treva" (um conto hassídico in War: A Call to Inner Peace).

quarta-feira, junho 28, 2006

amizade

Discutindo sobre a experiência da amizade, Lewis faz uma constatação surpreendente: a de que o homem moderno tem muita dificuldade de valorizar a amizade, de vê-la como uma forma nobre de amor. Ele, um estudioso da história clássica e medieval, comenta como a amizade era vista pelos antigos como "a mais feliz e a mais plenamente humana de todas as formas de amor humano; a coroa da vida e a escola da virtude" (C.S. Lewis, Four Loves, p. 57). Isso porque a amizade traz a experiência de amor independente de vínculos de sangue, independente de instintos imediatos, independente até da pressão da coletividade. A amizade é a forma de amor menos natural que há, por isso mais rara, dependente da vontade, da decisão, da escolha de cada um.

o amor que não é Deus

"Se a afeição se torna o soberano absoluto da vida humana, as sementes germinarão. O amor, tendo se tornado um deus, vira um demônio" (C.S. Lewis, Four Loves, p. 56).

É claro que Lewis está atacando aquela experiência de amor bem humano, possessivo, quase egoísta, ou egoísta mesmo quando fazendo gestos de abandono e doação. Aquele amor que quer controlar o outro, que quer atenção só para si, que quer ver a todos em total dependência.

quinta-feira, junho 22, 2006

afeição

Comentando sobre a os riscos da afeição humana, advertindo sobre o quão possessivo pode se tornar esse tipo de amor, C.S. Lewis mostra como o amor materno exagerado e zeloso pode sufocar os demais membros de uma família. Uma mãe superprotetora pode impedir um filho de amadurecer. Assim também ele fala de seu trabalho como professor: "A minha própria profissão -- a de professor universitário -- é nesse sentido perigosa. Se formos bons devemos sempre trabalhar para que venha o momento em que nossos alunos estejam prontos a se tornarem nossos críticos e rivais. Devemos nos alegrar quando esse momento chegar, assim como o mestre de esgrima se alegra quando seu aluno consegue superá-lo e desarmá-lo. E muitos o fazem" (C.S. Lewis, The Four Loves, 51).

sexta-feira, junho 16, 2006

natureza e romantismo

Fazendo a crítica do movimento romântico e citando autores como Wordsworth e Browning, C.S. Lewis faz refletir sobre o modo ingênuo com que nos relacionamos com a natureza: "Se você tomar a natureza como mestre, ela lhe ensinará exatamente as lições que você já decidiu aprender; e isso é só um outro modo de dizer que a natureza não nos ensina... O único imperativo que a natureza proclama é: 'Olhe. Ouça. Veja.'" (C.S. Lewis, The Four Loves, p. 9).

quinta-feira, junho 15, 2006

ciúme

"A rivalidade entre todos os amores naturais e o amor a Deus é algo que um cristão não ousa esquecer. Deus é o grande rival, o objeto último do ciúme humano; aquela beleza, tão terrível quanto a de Gorgon, que pode a qualquer momento roubar de mim -- pelo menos é o que parece -- o coração de minha esposa ou esposo ou filha" (C.S. Lewis, The Four Loves, 1988).

quarta-feira, maio 17, 2006

crianças


"Vocês dizem:

- Cansa-nos ter de conversar com crianças.

Têm razão.

- Cansa-nos, porque precisamos descer ao seu nível de compreensão.

Descer, rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado.

Estão equivocados.

- Não é isto o que nos cansa, e sim, o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível dos sentimentos das crianças.

Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão.
Para não machucá-las."
j

(Janusz Korczak)

quinta-feira, abril 13, 2006

pausa

Assim como a voz aprende o silêncio,
Assim como o olho aprende a não ver
Assim minha mão aprende o aceno
E minha cabeça aprende a esquecer.
Assim como a pele sente o que é frio,
Assim como o vôo sente o que é chão,
Assim o meu pé aprende a escada
E o próximo passo paira no vão
E faz sua pausa discreta o meu coração.

Todo dia tem novidade na feira,
Todo dia tem novidade no front,
Todo dia alguém vai subir a ladeira,
Todo dia alguém vai cantar no odeon,
Todo dia o show recomeça no circo,
Todo dia dorme este velho leão,
Todo dia pausa discreto o meu coração.

Assim como o ócio aprende o ofício,
Assim como a arte aprende a vender,
Assim o meu riso aprende o ocaso
E o meu descanso aprende a correr.
Assim como o dia brinca de noite,
Assim como a lua brinca de sol,
Assim a poeira pousa de estrela
E o vagalume sonha um farol,
Eu sonho que sou apenas um rouxinol.

terça-feira, abril 11, 2006

poeta é Deus

Eterno é Deus,
Tudo o mais é só folha de alfazema
Que o vento leva no doce perfume da açucena,
Águas passadas nas longas braçadas do moinho,
Leve desenho na pena de um livre passarinho.

Eterno é Deus,
E o resto é a sombra de uma nuvem
Sobre a corrente das águas que de repente surgem
E prontamente se escoam na sequidão da terra,
Um pensamento, uma flecha do arqueiro, quando erra.

Poeta é Deus,
Sou apenas o verso de um poema.
Ele é palavra, eu sou o desejo de um fonema,
Verso branco, breve
À espera do seu tema.

Eterno é Deus,
Tudo o mais é uma gota de sereno
Que de manhã cobre a folha da grama no terreno.
Ao meio-dia é apenas lembrança pouca e vaga,
É trilha incerta, é uma estrada deserta e ensolarada.

Poeta é Deus,
Sou apenas poeira do caminho.
Ele é o rio que me leva assim, devagarinho,
Pela vida afora, nunca mais sozinho.

palavra de amor


Uma palavra de amor
Vale por todos os sons,
Todos os sins, todos os nãos,
Todos os ais, todos os tons,
Cura uma dor, cessa o chorar,
Tira um rancor, no seu lugar
Planta uma flor e espera até brotar.

Uma canção de amor
Vale por todo o calar,
Todo o sofrer, todo e esperar,
Todo o correr, todo o chegar,
Faz conhecer, faz procurar,
Faz antever, faz enxergar
E receber o sol antes de nascer.

Uma palavra de amor é tão doce
Que todo o amaro se torna o amor
Todo silêncio é como se fosse um cantar.

quinta-feira, março 16, 2006

o tijolo e o cão



Estive recentemente em Campinas e pude visitar o Seminário Presbiteriano do Sul, escola teológica que foi minha casa durante quatro anos preciosos de minha vida. Como sempre, a primeira coisa que faço ao chegar lá é conferir a pegada de um cão num dos tijolos do velho Seminário. Para mim aquela marca na parede me fala ao coração. Algum cão perdido, lá pelos idos de 1940 (talvez antes), passou por uma olaria e pisou um tijolo mole, que depois foi levado ao forno, vendido, manuseado pelos pedreiros que construiram o seminário e tiveram a bela idéia de deixar aquela marca do lado de fora das paredes duplas.

Aquelas pegadas me falam de um animal ausente, inominado, desconhecido, mas presente em minhas melhores lembranças e sentimentos do Seminário. É só uma marca na parede, mas como fala! Assim é Deus em nossa vida, sinal de uma ausência eterna, e ao mesmo tempo eterna presença, profunda em nós. Quando vejo a marca sinto saudades, sinto saudades de Deus, daquele que um dia pisou este chão, moldou este barro e ficou em silêncio. Em silêncio fico eu enquanto medito nessas coisas. Dentro de mim tem a pegada de um Deus.

sexta-feira, março 10, 2006

a eternidade



"Não há folha que não esteja sob os Teus cuidados. Não há grito que, antes de ser emitido, Tu já não tenha ouvido. Não há água nas rochas que lá não fosse escondida pela Tua sabedoria. Não há fonte oculta que não tenha sido ocultada por Ti. Não há grotão para uma casa solitária que não fosse planejada por Ti para ser uma casa solitária. Não há homem neste acre de matas que não tenha sido feito por Ti para este acre de matas. Porém, há mais consolo na substância do silêncio do que na resposta a uma pergunta. A eternidade está no presente. A eternidade está na palma da mão. A eternidade é uma semente de fogo cujas raízes bruscas derrubam as barreiras que impedem meu coração de ser um abismo" (Thomas Merton, Diálogos com o Silêncio, 2003, p. 89).

quinta-feira, março 02, 2006

lembranças de Valinhos (SP)

Caminhar lentamente
A cada passo sorrir
Fechar os olhos como quem voa
E ouvir o som das aves
Pousar a respiração na brisa do vento
Sentir o coração pulsando
Pensando, pausando
Sem pressa
Ver as árvores que se postam caladamente
Verdes e belas
Resistentes a tudo
Obedientes ao Sol
Generosas
Presentes
E fincar raízes

terça-feira, janeiro 31, 2006

duvidar

Sou uma pessoa de fé. Aprendi a amar o grão de semente de mostarda que move montanhas. Mas sei que a fé é tanto maior quanto maior for a sombra da dúvida.

Também sou apaixonado pelo sabor do conhecimento, mas sei que o conhecer só é possível pelo exercício saudável do duvidar, por isso "a dúvida me agrada não menos que o saber" (Dante Alighieri).

quinta-feira, janeiro 12, 2006

incompletude

"Nada do que é digno de ser feito pode ser realizado em nosso período de vida;
por isso somos salvos pela esperança. Nada do que é verdadeiro e belo ou bom faz sentido pleno em qualquer contexto imediato da história; por isso somos salvos pela fé. Nada do que fazemos, por mais virtuoso que seja, pode ser realizado sozinho; por isso somos salvos pelo amor" (Reinhold Niebuhr).

segunda-feira, janeiro 09, 2006


Sol mordendo a pele clara
Gota de suor
Mas é só segunda-feira!!