domingo, dezembro 30, 2007

uma canção nova


Despedida

Se um dia você viajar pra Goiás
E passar a porteira dos campos gerais
Não se avexe e ande um pouco mais
E será bem-vindo em meus quintais
Com violas, cantorias.

E se um dia você for ao Sul do Brasil
E for tempo de inverno ou dia de frio,
Provará o nosso chimarrão,
Ouvirá, quem sabe, uma canção
E haverá entre nós comunhão.

Contaremos muitos causos,
Lendas do sertão,
Partiremos sobre a mesa
Frutos deste chão,
Levaremos na algibeira
A recordação de um tempo tão bom.

Se a distância um dia se estender entre nós
E deixar-nos mudos, pensativos e sós,
Os caminhos é que falarão
Dos amigos que sempre serão,
Pela fé, companheiros e irmãos.

sábado, dezembro 22, 2007

campo branco (elomar)


Cada vez que ouço esta canção, minha alma se inspira, sonha, canta, chora, lamenta e louva. Viva o grande poeta Elomar.

Campo Branco minhas penas que pena secou
Todo bem qui nóis tinha era a chuva era o amor
Num tem nada não nóis dois vai penano assim
Campo lindo ai qui tempo ruim
Tu sem chuva e a tristeza em mim

Peço a Deus grande Deus de Abraão
Prá arrancar as pena do meu coração
Dessa terra sêca en ança e aflição
Todo bem é de Deus qui vem
Quem tem bem lôva Deus seu bem
Quem não tem pede a Deus qui vem

Pela sombra do vale do ri Gavião
Os rebanho esperam a trovoada chover
Num tem nada não também no meu coração
Vô ter relempo e trovão
Minh’alma vai florescer

Quando a amada e esperada trovoada chegá
Iantes da quadra as marrã vão tê
Sei qui inda vô vê marrã parí sem querê
Amanhã no amanhecer
Tardã mais sei qui vô ter
Meu dia inda vai nascer

E essa tempo da vinda tá perto de vín
Sete casca aruêra cantaram prá mim
Tatarena vai rodá vai botá fulô
Marela de u’a veis só
Pra ela de u’a veis só

Glossário

Campo Branco: Tradução de Caatinga, expressão indígena
Ança: ânsia
Iantes das quadra asmarrã vão ter: Antes do ciclo biológico das cabras, elas vão parir
E esse tempo da vinda tá perto de vim: Expressão bíblica, derivada da profecia:
os tempos da ressurreição estão próximos.
Sete casca aruêra: árvore medicinal
Tatarena: árvore que se abre em flor, anunciadora da chuva

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A Pedra de Amolar


Aquele que comigo, quando eu choro, chora
Aquele que comigo dança,
A este jamais direi:
Ora, não me amoles

Porque se como o ferro com ferro se afia
Afia o homem a seu amigo
Isto hoje te digo:
Podes me amolar!

Ó Deus, dá que quando entre eu e meu amigo
Houver atrito a ponto de sair faísca de fogo
Que eu não me desaponte porque esse tal
É enviado teu pra que eu não fique cego

Porque cego não vê que sem o esmeril
Se perde o fio, o gume
Quem pode perceber,
não perde a comunhão, assume
Estende a mão, aceita
A pedra de amolar

(um poema do Roberto Diamanso)

quarta-feira, novembro 21, 2007

um poema de drummond

Amar
(Carlos Drummond de Andrade)


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

sábado, novembro 17, 2007

para os céticos


"Deus se revela no livro da natureza, pois Ele é seu autor. Mesmo assim, só compreendemos esse livro se tivermos a necessária iluminação espiritual. Sem reverência e percepção, erramos a direção. Não podemos julgar a confiabilidade de nenhum livro simplesmente ao lê-lo. Agnósticos e céticos, por exemplo, só acham defeitos a invés de perfeição. Os céticos dizem: 'Se há um criator todo-poderoso, por que há furacões, terremotos, dor, sofrimento, morte, etc.?'. É como criticar um edifício que ainda não foi terminado ou um quadro que ainda não foi acabado. Quando o vermos plenamente completo, ficaremos embaraçados por nossa precipitação e louvaremos a habilidade do artista. Deus não deu ao mundo sua forma atual em um único dia nem deixará perfeito em um único dia. A criação inteira move-se em direção à sua plenitude, e veremos o mundo com os olhos de Deus, movendo-se em direção ao que é perfeito, sem falta ou defeito, então nos prostraremos humildemente diante do nosso criador e diremos: 'Isso é muito bom'" (Sadhu Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 55).

tertuliano


"Embora tenhamos uma tesouraria, ela não guarda dinheiro vindo de compra e venda, como se a religião tivesse seu preço. Uma vez por mês, expontaneamente, cada um coloca ali uma pequena doação; mas apenas de livre vontade, e apenas segundo suas possibilidades; pois não há compulsão; tudo é voluntário. Esses dons são como fundos e depósitos da piedade. Pois eles não foram colocados lá para serem gastos em festas, bebidas e banquetes, mas para assistir e sepultar os pobres, suprir as necessidades de meninos e meninas que perderam seus pais e seus bens materiais, de pessoas idosas que já não podem sair de casa; bem como socorrer os que sofreram naufrágio; e se acaso alguém estiver nas minas em trabalhos forçados, ter sido banido para as ilhas ou estiver na prisão por causa de sua fidelidade à causa da Igreja de Deus, essas ofertas se tornam o sustento de sua confissão" (Tertuliano, Apologia, 160-230 A.D.).

sábado, outubro 20, 2007

dança de roda

Bem melhor do que navegar sozinho
Bem melhor do que caminhar sem par
Muito mais do que só se olhar no espelho
Ou ver a própria sombra...

Pega a sanfona, traz a viola, toca a rabeca (olerê)
Chama os tambores e os tocadores pra nossa festa (olará)
Faz uma fogueira, planta uma bandeira, canta a noite inteira (aiá)
Convida todos os ritimistas para a calçada (olerê)
Pega as estrelas, põe nas soleiras da madrugada (olará)
Dança moçambique, dança marujada, dança de congada (aiá)

Uma parte da vida é suor e pão
Outra parte é pandeiro e celebração
Tudo tão bom
Se a mão de quem planta puder colher

Ir além dos limites do próprio corpo
Por o pé nas fronteiras do nosso chão
Palmo a palmo, alcançar com algum esforço
O esboço de outra palma

Ver o riso pousado em cada rosto
Ter o gosto de reaprender a andar
Como quem sabe caminhar dançando
Ao toque da viola

Viva a alforria! Viva a alegria! Viva a fartura! (olerê)
Que haja folia e cantoria, que haja procura (olará)
De uma dança nova, de um casa nova, de uma vida nova (aiá)
Dança de roda, dança de rua, dança de novo (olerê)
Festa de maio, festa de negro, festa do povo (olará)
Canta a novidade, canta de verdade, canta a liberdade (aiá)

É que a vida floresce nos pedregais
E renova a florada dos matagais
Belos sinais
Da chegada certeira de um tempo bom

(canção que faz parte do meu próximo CD: Água no Deserto)

simplicidade


Simplicidade é um dom, ser livre é um dom,
Estar onde se deve estar é um dom
E quando estamos no lugar certo
Este será o vale do amor e da alegria.
Quando se alcança verdadeira simplicidade
Para prostrar-se e curvar-se, não há acanhamento
Pois girar e girar será a nossa alegria
Até que girando e girando cheguemos ao lugar certo.

(cântico shaker Elder Joseph Brackett Jr., 1848)

O Senhor da Dança


Dancei na manhã em que o mundo começou
Dancei com a Lua, as estrelas e o Sol
Desci do céu e dancei na Terra
Em Belém eu nasci

Então dance, onde quer que você estiver
Eu sou o Senhor da Dança, Ele disse!
E vou conduzi-lo, onde quer que você estiver
E vou conduzi-los todos na dança, Ele disse!

Dancei para os escribas e fariseus
Mas eles não gostam de dançar, não quiseram me seguir
Dancei com pescadores, com Tiago e João
Eles vieram comigo, e a dança continuou

Dancei no sábado em que curei um paralítico
E os santarrões disseram que isso era vergonhoso!
E me chicotearam e me torturaram e me pregaram numa cruz
E ali me deixaram para morrer!

Dancei numa sexta-feira quando o céu ficou escuro
É difícil dançar enquanto se é pisoteado pelo Diabo
Enterraram meu corpo e pensaram que eu estava acabado
Mas eu sou a Dança e por isso continuo

Eles me cortaram e levantaram no madeiro
Eu sou a Vida que jamais perece, nunca morre!
Viverei em você se você viver em mim
Eu sou o Senhor da Dança, Ele disse!

(hino shaker do século XIX, adaptado por­ Sy­dney Car­ter, 1963)

sábado, outubro 13, 2007

calma, zé!

"Seja paciente, pois cada pessoa que você encontra está enfrentando uma grande batalha" (Filo de Alexandria apud Furnal, 2007).

sexta-feira, outubro 12, 2007

john wesley e a escravidão


"A escravidão é uma vilania nojenta, um escândalo para a Inglaterra e para a humanidade. Fico chocado quando um homem, por ser negro, é enganado ou atacado por um branco e não pode se defender... Vá em nome de Deus e no poder do Seu Espírito, para que a escravidão americana, a mais infame que já se viu sob o sol, seja banida para sempre" (John Wesley, na última carta que escreveu antes de morrer, 24 nov. 1790. A carta foi escrita a William Wilberforce, figura fundamental na abolição do tráfico de escravos na Inglaterra, em 1807).

terça-feira, outubro 09, 2007

o deus que ama você


Deve ser trabalhoso para o Deus que ama você
Pensar em como você seria mais feliz do que é hoje
Se você pudesse avistar seus muitos futuros.
Deve ser doloroso para Ele vê-lo nas noites de sexta
Indo para casa de carro, após um dia de trabalho, contente com sua semana --
Três belas casas vendidas a famílias dignas --
Sabendo, como Ele sabe, o que teria acontecido exatamente
Se você tivesse feito a segunda opção na universidade,
Conhecendo o colega de quarto que você teria,
Cujas ardentes opiniões sobre pintura e música
Teriam despertado em você um vocação que duraria uma vida inteira.
Um vida 30 graus acima da vida que você leva hoje
Em qualquer escala de satisfação. E cada ponto seria
Um espinho no lado do Deus que ama você.
Você não quer isso, um homem generoso como você
Que tenta poupar sua esposa dos desapontamentos do dia
Para que ela possa guardar seu bom humor para as crianças.
E você, gostaria que esse Deus comparasse sua esposa
Com as mulheres a quem você estava destinado a encontrar no outro campus?
É difícil para você pensar nele avaliando quanto mais proveitosa seria
A sua conversação lá nessa outra universidade
Em comparação com as conversas que você costuma ter.
E pensar como esse Deus amoroso se sentiria
Sabendo que o próximo homem da fila para casar-se com sua esposa
A faria muito mais feliz do que você jamais seria capaz,
Mesmo em seus melhores dias, quando você realmente se esforça.
Você consegue dormir à noite crendo que um Deus assim
Está caminhando pelo Seu quarto celeste, chateado pelas alternativas
Às quais você foi poupado por pura ignorância? A diferença entre o que é
E o que poderia ser permanecerá viva para Ele,
Mesmo depois de você deixar de existir, depois de você pegar um resfriado
Ao correr pela neve em busca do jornal da manhã,
Perdendo 11 anos de vida que o Deus que ama você
Imagina, cena por cena.
A não ser que você venha ajudá-lo ao imaginá-lo
Sábio tanto quanto você é, não um Deus, na verdade, somente um amigo,
Não mais íntimo que seu amigo verdadeiro que você conheceu na universidade,
a quem você não escreve a meses. Sente-se hoje à noite
E escreva a ele sobre a vida a respeito da qual você pode falar
Com certa autoridade, a vida que você tem testemunhado,
Que, até onde você sabe, é a vida que você escolheu.

(Carl Dennis, 2001, apud Josh Furnal, 2007)

o céu dos ingleses

"Eu não penso como mamãe. Não falo nada porque em negócio de religião ela não admite discussão. Não posso ter esse medo que mamãe tem porque eu penso comigo: 'Se meu pai for para o inferno, para onde irão meus tios e todos os homens de Diamantina a não ser Seu Juca Neves?'. Eu sei que Deus é justo. Já sofri muito em pequena por causa de vovô e não quero agora sofrer também por causa de meu pai. Na escola de Mestra Joaquina eu não podia ter a menor briguinha com uma menina, que ela não dissesse logo: 'Meu avô não é como o seu que foi para o céu dos ingleses'. Meu avô não foi enterrado na igreja porque era protestante; foi na porta da Casa de Caridade e até hoje se fala nisso em Diamantina. Quando ele estava muito mal, os padres, as irmãs de caridade e até Senhor Bispo, que gostava muito dele, pelejaram para ele se batizar e confessar para poder ser enterrado no sagrado. Ele respondia: 'Toda terra que Deus fez é sagrada'. O vigário não quis deixar dobrar os sinos, mas os homens principais de Diamantina foram às igrejas e fizeram dobrar todos os sinhos da cidade o dia inteiro. Ele era muito caridoso e estimado. Quando o doente não podia, ele mandava os remédios, a galinha e ainda dinheiro. A cidade inteira acompanhou o enterro. Quando ele morreu eu era muito pequena e até hoje se fala em Diamantina na caridade do Doutor Inglês, como todos o chamavam. Um homem assim pode estar no inferno?" (Helena Morley, Minha Vida de Menina, 9 nov. 1893). [Helena Morley era o pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, de pai protestante e mãe católica, que manteve um diário de infância que veio a se tornar muito famoso na década de 1940]

segunda-feira, setembro 24, 2007

amar ou não amar

"O evangelho de Jesus Cristo dá voz concreta a duas verdades paradoxais que expressam a tragédia da condição humana: a primeira é que, se você não ama, você não viverá; a segunda é que, se você ama, você morrerá. Se você não puder amar, você permanecerá preso a si mesmo e ficará estéril, incapaz de criar um futuro para si ou para os outros, incapaz de viver. Se, todavia, você de fato amar, você será uma ameaça às estruturas de dominação sobre as quais repousam a sociedade e então você será morto" (T.S. Eliot).

sábado, setembro 22, 2007

rodapé para todas as orações

Somente aquele a quem me prostro sabe a quem me prostro
Quando tento dizer o Nome inefável, murmurando Tu,
E sonho com fantasias fidianas e abraço no coração
Símbolos (que sei) não podem ser o que Tu és.
Assim sempre, todos os que oram blasfemam,
Adorando com suas frágeis imagens um sonho folclórico,
E todos os homens em suas orações, auto-enganadas, dirigem-se
À construção de seu próprios inquietos pensamentos, a não ser que
Tu em magnética misericórdia Te desvies
De nossas setas, miradas imprecisamente, além do deserto;
E todos os homens são idólatras, clamando surdamente
A um ídolo surdo, se Tu os aceitas ao pé da letra.
Não aceita, ó Senhor, nosso sentido literal. Senhor, em tua grande
Contínua fala, traduz nossa metáfora claudicante.
(C.S. Lewis)

segunda-feira, setembro 10, 2007

o centro

"Preciso mudar do falar sobre Jesus para deixar que Ele fale comigo, de pensar sobre Jesus para deixar que Ele pense dentro de mim, de agir para e com Jesus para deixar que Ele aja através de mim. Sei que o único jeito de ver o mundo é vê-lo através dos Seus olhos... Tenho de ir ao centro do ser: o centro onde o tempo toca a eternidade, onde a Terra e o céu se encontram, onde a Palavra de Deus se torna corpo humano, onde a morte e a imortalidade se abraçam" (apud Josh Furnal, Bywords, 2007).

sábado, setembro 08, 2007

oração


"A única preocupação do diabo é impedir que os cristãos orem. Ele nada teme dos estudos feitos sem oração, de trabalho feito sem oração ou de religião feita sem oração. Ele ri de nossos esforços, faz pouco caso de nossa sabedoria, mas treme quando oramos" (Samuel Chadwick).


Bruce Metzger, ao comentar Apocalipse 8.1, diz que ali há silêncio no céu depois de seis ou sete selos serem abertos. Depois, há uma grande calma, como que antes da tempestade. "E você fica imaginando porque há silêncio; cresce a tensão enquanto se espera outro juízo de Deus, contudo o silêncio aqui não é de terror. O silêncio (v. 3) é causado por um anjo que traz diante do altar as orações dos santos" (apud Josh Furnal, 2007, p. 6).

quinta-feira, junho 14, 2007

idéia nova

Uma palavra nova
Para iluminar a nova manhã
Uma idéia nova
A cor, a flor temporã

E mais uma cantiga nova
Cheiro de limão, sabor de maçã
O brilho da viola
Lá na praia de Itapuã

E mais uma janela aberta
Para receber a brisa do mar
E uma vontade certa
De o coração navegar

E mais, uma cidade alerta
Esperando a voz da vida chamar
Para uma grande festa
Que apenas vai começar

E mais, muito mais... Bem mais...

Quero cantar como quem anuncia
O calor do dia, a alegria,
A vida, a nova estação.
Sol, olha o sol sobre a pele da Terra!
Somos só o sal, o resto é chão, É céu, é pleno verão.

(Gustavo Messina & Gladir Cabral)

domingo, junho 03, 2007

armas de fogo

"Canhões e armas de fogo são máquinas cruéis e odiosas. Eu creio que elas surgiram por sugestão direta do demônio. Contra as balas voadoras nenhum valor adianta; o soldado é morto, antes mesmo de saber como. Se Adão pudesse ter uma visão dos terríveis instrumentos que seus filhos iriam inventar, teria morrido de desgosto" (Martinho Lutero).

sábado, abril 21, 2007

nos passos de Yesu

"Jamais me esquecerei da noite em que fui expulso de minha casa. Dormi ao relento, debaixo de uma árvore, e fazia muito frio. Jamais havia experimentado tal coisa. Então pensei: 'Ontem eu vivia no conforto. Agora estou tremendo de frio, e faminto, e sedento. Ontem eu tinha tudo o que necessitava e muito mais; hoje não tenho mais abrigo, nem roupas quentes, nem comida'. Por fora a noite era difícil, mas eu sentia uma grande alegria e paz em meu coração. Eu estava seguindo os passos de meu novo mestre -- Yesu, que não tinha onde repousar a cabeça, que fora desprezado e rejeitado. No luxo e no conforto de casa eu não havia encontrado paz. Mas a presença do Mestre mudou meu sofrimento em paz, e esta paz nunca mais me abandonou" (Sundar Singh, Wisdom of the Sadhu, p. 29).

segunda-feira, abril 16, 2007

beira de estrada


E vem chegando na beira da estrada
Traz a poeira da longa jornada
Em seu alforje, seu tudo, seu nada
Sua algibeira é uma feira acabada.

Mas na mente a lembrança da casa do Pai,
A varanda caiada, uma folha que cai
No final do verão, ante a nova estação,
Vento novo que um dia viria.

E vem chegando entre lenços e laços,
Sobras de um tempo de perdas e lapsos.
Muitos remendos, costuras e trapos.
Não há sandálias, os pés vêm descalços.

Mas lá dentro do peito a saudade do Pai,
A vontade de ver o seu rosto que atrai,
De prostrar-se aos seus pés
De beijar seus anéis
De pedir sua graça, que basta e passa
Muito além da medida
Contida

E vem chegando e abrindo a cancela
Como se abre uma velha janela
A luz do sol cobre toda a cautela
Esta manhã nunca esteve tão bela

sexta-feira, janeiro 12, 2007

sem lenço e sem documento

Semblante pesado, irado mesmo, cheio de desespero e pesar pela morte da esposa e de outro filho, o pai de Sundar Singh pronuncia para ele as palavras formais de expulsão e deserdamento: “Nós te rejeitamos para sempre e te expulsamos de nossa presença. Tu não serás mais meu filho. Nós não te conhecemos mais. Para nós, tu és como alguém que jamais nasceu. Tenho dito”.

“Eu jamais me esquecerei da noite em que fui expulso de casa. Dormi debaixo de uma árvore, e estava muito frio. Jamais havia experimentado algo assim. Pensei: ‘Ontem eu vivia no conforto. Agora estou tremendo de frio, estou faminto e tenho sede. Ontem eu tinha tudo de que precisava e muito mais; hoje não tenho abrigo, nem o calor de minhas roupas, nem comida’. Por fora a noite era difícil, mas eu era tomado por uma maravilhosa alegria e paz em meu coração. Eu estava seguindo os passos de meu novo mestre – Yesu, que não tinha onde reclinar a cabeça, e que fora desprezado e rejeitado. No luxo e no conforto de minha casa eu não tinha paz. Mas a presença do Mestre transformou meu sofrimento em paz, e sua paz jamais me andonou” (Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 28-9).

terça-feira, janeiro 09, 2007

leão ou chacal


Após a conversão de Sundar Singh, houve grande tumulto na cidade. A escola protestante foi fechada, os missionários tiveram que fugir para Ludhiana. Em casa, o pai de Sundar tentou dissuadi-lo dessa nova fé:

“Meu querido filho – luz dos meus olhos, conforto do meu coração – que você tenha vida longa! Como seu pai, eu clamo para que você considere sua família. Certamente você não deseja que o nome de sua família caia em desgraça. Certamente essa religião cristã não ensina a desobediência aos pais. Eu ordeno que você cumpra o seu dever e se case. Já escolhi uma noiva, como é nosso costume, e tudo está preparado. Como presente de noivado, eu vou lhe deixar uma herança de 150.000,00 rúpias, que garantirão a você e à sua família uma vida confortável e segura. Seu tio ainda vai lhe dar uma grande herança em ouro.

“Estou sendo bem razoável, meu filho. Mas se você se recusar a ouvir-me, então saberei que está disposto a desonrar sua família, e não terei outra alternativa senão deserdá-lo. Você está usando o bracelete de um Sikh, você está usando cabelos compridos como um sinal de um Sikh, você tem o sobrenome de um Sikh. Será que você se esqueceu do significado do nome que nossos pais adotaram? Você esqueceu o que significa ser um Singh?

“Não, pai; esse nome quer dizer ‘leão’.

“Você sabe o significado de nosso nome, e ainda assim age como um chacal do deserto. Por quê? Chegou o tempo de você fazer sua escolha”.

Sundar Singh voltou ao seu quarto e orou. Então cortou seu cabelo (The Wisdom of the Sadhu, p. 27-8).

quarta-feira, janeiro 03, 2007

encontro

“Embora naquele tempo eu me considerasse um herói por ter queimado os Evangelhos, meu coração não encontrava paz. Na verdade, minha inquietação só aumentava, e eu me sentia um miserável pelos próximos dois dias. No terceiro dia, quando não conseguia mais suportar a angústia, levantei-me às 3h da madrugada e orei para que, se Deus existisse afinal, que ele se revelasse a mim. Se eu não recebesse uma resposta até o amanhecer, eu colocaria minha cabeça nos trilhos do trem e buscaria a resposta além da fronteira desta vida.

“Eu orei e orei, esperando pela hora de fazer minha última caminhada. Lá pelas 4h30 eu vi algo estranho. Havia um brilho na sala. No início pensei que havia fogo na casa, mas olhando através da porta e das janelas, eu não pude ver o que produzia a luz. Então me ocorreu um pensamento: talvez isso seja uma resposta de Deus. Então voltei ao meu lugar de costume e orei, olhando para a estranha luz. Então vi uma figura na luz, estranha mas de alguma forma familiar. Não era Shiva nem Krishna nem qualquer outra encarnação hindu que eu esperava encontrar. Então ouvi uma voz falando na língua urdu: ‘Sundar, até quando você irá rir de mim? Vim para salvá-lo, pois você orou para encontrar o caminho da verdade. Então por que você não a aceita?’ Foi aí que pude ver as marcas de sangue em suas mãos e em seus pés e reconheci que era Yesu, que os cristãos proclamavam. Caí aos seus pés. Eu estava cheio de profunda tristeza e remorso por causa dos meus insultos e pela minha irreverência, mas também sentia uma maravilhosa paz. Essa era a alegria que procurava. Era o céu… Então a visão se desvaneceu, embora minha paz e alegria permaneceram.

“Quando me levantei, fui imediatamente acordar meu pai e dizer a ele o que eu havia experimentado – dizer-lhe que agora eu era um seguidor de Yesu. Ele me disse para voltar para cama. ‘Ora, antes de ontem você estava queimando livros sagrados dos cristãos. Agora você diz que é um deles. Vá dormir, meu filho. Você está cansado e confuso. Amanhã você se sentirá melhor’” (Sundar Singh, The Wisdom of the Sadhu, p. 25-6).