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claro, escuro

Um rabi perguntou a seus alunos: "Quando é que dá, ao amanhecer, para distiguir a luz das trevas?" Um estudante respondeu: "Quando distingo um bode de um macaco". "Não", respondeu o rabi. Um outro disse: "Quando eu distingo uma palmeira de um figo". "Não", respondeu o rabi de novo. "Bem, então qual é a resposta?", seus alunos o pressionaram. "É quando você se olha o rosto de cada homem e de cada mulher e se vê nele seu irmão e sua irmã", disse o rabi."Só então você viu a luz. Tudo o mais é treva" (um conto hassídico in War: A Call to Inner Peace).

amizade

Discutindo sobre a experiência da amizade, Lewis faz uma constatação surpreendente: a de que o homem moderno tem muita dificuldade de valorizar a amizade, de vê-la como uma forma nobre de amor. Ele, um estudioso da história clássica e medieval, comenta como a amizade era vista pelos antigos como "a mais feliz e a mais plenamente humana de todas as formas de amor humano; a coroa da vida e a escola da virtude" (C.S. Lewis, Four Loves , p. 57). Isso porque a amizade traz a experiência de amor independente de vínculos de sangue, independente de instintos imediatos, independente até da pressão da coletividade. A amizade é a forma de amor menos natural que há, por isso mais rara, dependente da vontade, da decisão, da escolha de cada um.

o amor que não é Deus

"Se a afeição se torna o soberano absoluto da vida humana, as sementes germinarão. O amor, tendo se tornado um deus, vira um demônio" (C.S. Lewis, Four Loves , p. 56). É claro que Lewis está atacando aquela experiência de amor bem humano, possessivo, quase egoísta, ou egoísta mesmo quando fazendo gestos de abandono e doação. Aquele amor que quer controlar o outro, que quer atenção só para si, que quer ver a todos em total dependência.

afeição

Comentando sobre a os riscos da afeição humana, advertindo sobre o quão possessivo pode se tornar esse tipo de amor, C.S. Lewis mostra como o amor materno exagerado e zeloso pode sufocar os demais membros de uma família. Uma mãe superprotetora pode impedir um filho de amadurecer. Assim também ele fala de seu trabalho como professor: "A minha própria profissão -- a de professor universitário -- é nesse sentido perigosa. Se formos bons devemos sempre trabalhar para que venha o momento em que nossos alunos estejam prontos a se tornarem nossos críticos e rivais. Devemos nos alegrar quando esse momento chegar, assim como o mestre de esgrima se alegra quando seu aluno consegue superá-lo e desarmá-lo. E muitos o fazem" (C.S. Lewis, The Four Loves , 51).

natureza e romantismo

Fazendo a crítica do movimento romântico e citando autores como Wordsworth e Browning, C.S. Lewis faz refletir sobre o modo ingênuo com que nos relacionamos com a natureza: "Se você tomar a natureza como mestre, ela lhe ensinará exatamente as lições que você já decidiu aprender; e isso é só um outro modo de dizer que a natureza não nos ensina... O único imperativo que a natureza proclama é: 'Olhe. Ouça. Veja.'" (C.S. Lewis, The Four Loves , p. 9).

ciúme

"A rivalidade entre todos os amores naturais e o amor a Deus é algo que um cristão não ousa esquecer. Deus é o grande rival, o objeto último do ciúme humano; aquela beleza, tão terrível quanto a de Gorgon, que pode a qualquer momento roubar de mim -- pelo menos é o que parece -- o coração de minha esposa ou esposo ou filha" (C.S. Lewis, The Four Loves, 1988).

crianças

"Vocês dizem: - Cansa-nos ter de conversar com crianças. Têm razão. - Cansa-nos, porque precisamos descer ao seu nível de compreensão. Descer, rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado. Estão equivocados. - Não é isto o que nos cansa, e sim, o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível dos sentimentos das crianças. Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão. Para não machucá-las." j (Janusz Korczak)

pausa

Assim como a voz aprende o silêncio, Assim como o olho aprende a não ver Assim minha mão aprende o aceno E minha cabeça aprende a esquecer. Assim como a pele sente o que é frio, Assim como o vôo sente o que é chão, Assim o meu pé aprende a escada E o próximo passo paira no vão E faz sua pausa discreta o meu coração. Todo dia tem novidade na feira, Todo dia tem novidade no front, Todo dia alguém vai subir a ladeira, Todo dia alguém vai cantar no odeon, Todo dia o show recomeça no circo, Todo dia dorme este velho leão, Todo dia pausa discreto o meu coração. Assim como o ócio aprende o ofício, Assim como a arte aprende a vender, Assim o meu riso aprende o ocaso E o meu descanso aprende a correr. Assim como o dia brinca de noite, Assim como a lua brinca de sol, Assim a poeira pousa de estrela E o vagalume sonha um farol, Eu sonho que sou apenas um rouxinol.

poeta é Deus

Eterno é Deus, Tudo o mais é só folha de alfazema Que o vento leva no doce perfume da açucena, Águas passadas nas longas braçadas do moinho, Leve desenho na pena de um livre passarinho. Eterno é Deus, E o resto é a sombra de uma nuvem Sobre a corrente das águas que de repente surgem E prontamente se escoam na sequidão da terra, Um pensamento, uma flecha do arqueiro, quando erra. Poeta é Deus, Sou apenas o verso de um poema. Ele é palavra, eu sou o desejo de um fonema, Verso branco, breve À espera do seu tema. Eterno é Deus, Tudo o mais é uma gota de sereno Que de manhã cobre a folha da grama no terreno. Ao meio-dia é apenas lembrança pouca e vaga, É trilha incerta, é uma estrada deserta e ensolarada. Poeta é Deus, Sou apenas poeira do caminho. Ele é o rio que me leva assim, devagarinho, Pela vida afora, nunca mais sozinho.

palavra de amor

Uma palavra de amor Vale por todos os sons, Todos os sins, todos os nãos, Todos os ais, todos os tons, Cura uma dor, cessa o chorar, Tira um rancor, no seu lugar Planta uma flor e espera até brotar. Uma canção de amor Vale por todo o calar, Todo o sofrer, todo e esperar, Todo o correr, todo o chegar, Faz conhecer, faz procurar, Faz antever, faz enxergar E receber o sol antes de nascer. Uma palavra de amor é tão doce Que todo o amaro se torna o amor Todo silêncio é como se fosse um cantar.

o tijolo e o cão

Estive recentemente em Campinas e pude visitar o Seminário Presbiteriano do Sul, escola teológica que foi minha casa durante quatro anos preciosos de minha vida. Como sempre, a primeira coisa que faço ao chegar lá é conferir a pegada de um cão num dos tijolos do velho Seminário. Para mim aquela marca na parede me fala ao coração. Algum cão perdido, lá pelos idos de 1940 (talvez antes), passou por uma olaria e pisou um tijolo mole, que depois foi levado ao forno, vendido, manuseado pelos pedreiros que construiram o seminário e tiveram a bela idéia de deixar aquela marca do lado de fora das paredes duplas. Aquelas pegadas me falam de um animal ausente, inominado, desconhecido, mas presente em minhas melhores lembranças e sentimentos do Seminário. É só uma marca na parede, mas como fala! Assim é Deus em nossa vida, sinal de uma ausência eterna, e ao mesmo tempo eterna presença, profunda em nós. Quando vejo a marca sinto saudades, sinto saudades de Deus, daquele que um dia pisou este chão,...

a eternidade

"Não há folha que não esteja sob os Teus cuidados. Não há grito que, antes de ser emitido, Tu já não tenha ouvido. Não há água nas rochas que lá não fosse escondida pela Tua sabedoria. Não há fonte oculta que não tenha sido ocultada por Ti. Não há grotão para uma casa solitária que não fosse planejada por Ti para ser uma casa solitária. Não há homem neste acre de matas que não tenha sido feito por Ti para este acre de matas. Porém, há mais consolo na substância do silêncio do que na resposta a uma pergunta. A eternidade está no presente. A eternidade está na palma da mão. A eternidade é uma semente de fogo cujas raízes bruscas derrubam as barreiras que impedem meu coração de ser um abismo" (Thomas Merton, Diálogos com o Silêncio , 2003, p. 89).

lembranças de Valinhos (SP)

Caminhar lentamente A cada passo sorrir Fechar os olhos como quem voa E ouvir o som das aves Pousar a respiração na brisa do vento Sentir o coração pulsando Pensando, pausando Sem pressa Ver as árvores que se postam caladamente Verdes e belas Resistentes a tudo Obedientes ao Sol Generosas Presentes E fincar raízes

duvidar

Sou uma pessoa de fé. Aprendi a amar o grão de semente de mostarda que move montanhas. Mas sei que a fé é tanto maior quanto maior for a sombra da dúvida. Também sou apaixonado pelo sabor do conhecimento, mas sei que o conhecer só é possível pelo exercício saudável do duvidar, por isso "a dúvida me agrada não menos que o saber" (Dante Alighieri).

incompletude

"Nada do que é digno de ser feito pode ser realizado em nosso período de vida; por isso somos salvos pela esperança. Nada do que é verdadeiro e belo ou bom faz sentido pleno em qualquer contexto imediato da história; por isso somos salvos pela fé. Nada do que fazemos, por mais virtuoso que seja, pode ser realizado sozinho; por isso somos salvos pelo amor" (Reinhold Niebuhr).
Sol mordendo a pele clara Gota de suor Mas é só segunda-feira!!

Sadhu Sundar Singh

Wisdom of a Sadhu Sundar Singh (1889-1929) Both water and oil come from the earth. And though they are similar in many ways, they are opposites in their nature and their purpose. One extinguishes fire, the other gives fuel to the fire. Similarly, the world and its treasures are creations of God along with the soul and its thirst for spiritual truth. But if we try to quench the thirst of our soul with the wealth and pride and honors of this world, then it is like trying to extinguish fire with oil. The soul will only find peace and contentment in the One who created it along with its longing. When we turn to the living Master, we receive water that satisfies our soul. This water is a well of spiritual life that springs up deep within us. Source: "Wisdom of the Sadhu: Teachings of Sundar Singh" (Plough, 2000) Que pode ser: Água e óleo vêm da terra. E embora sejam parecidos em muitas coisas, têm natureza e propósitos totalmente opostos. Um extingue o fogo, o outro alimenta o fog...

paz

"Na vontade divina está a nossa paz: ela é aquele mar ao qual tudo se move, as coisas criadas por Deus e por meio da natureza" (Dante, Divina Comédia , III.iii).

a inveja

É Virgílio quem adverte o jovem Dante, caminhando pelas trilhas do Purgatório: "A inveja vos atormenta, porque os vossos desejos olham àqueles bens terrenos, dos quais tanto mais o gozo diminui quanto mais são os que nele participam. Se o amor da suma esfera encaminhasse os vossos desejos para o alto, não teríeis no coração o receio que outrem pudesse diminuir um instante o vosso gozo; naquele claustro, isto é, no Céu, ao contrário da Terra, quanto são mais a gozar de um mesmo bem, tanto mais cada um goza. (...) Quanto maior é o número dos que no Céu amam, tanto mais ocasião vos é de amar com santo amor, bem como espelho um ao outro refletindo". (A Divina Comédia, II.xv)